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Mostrando postagens com o rótulo Projeto Poesia às segundas-feiras

Projeto Poesia às 2as.feiras

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ANDRADE, Carlos Drummond de. A rua diferente. IN: Alguma poesia. 11a.ed., Rio de Janeiro, Record, 2010, p.35

Na minha rua estão cortando árvores
botando trilhos
construindo casas.
Minha rua acordou mudada.
Os vizinhos não se conformam.
Eles não sabem que a vida
tem dessas exigências brutas.

Só minha filha goza o espetáculo
e se diverte com os andaimes,
a luz da solda autógena
e o cimento escorrido nas formas.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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ANDRADE, Carlos Drummond de. Poesia. IN: Alguma poesia. 11a.ed., Rio de Janeiro, Record, 2010, p.65

Gastei uma hora pensando um verso
que a pena não quer escrever.
No entanto ele está cá dentro
inquieto, vivo.
Ele está cá dentro
e não quer sair.
Mas a poesia deste momento
inunda minha vida inteira.


Projeto Poesia às 2as.feiras

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QUINTANA, Mario. Dedicatória. IN: A cor do invisível. 2a.ed. São Paulo, Globo, 1989, p.26

Quem foi que disse que eu escrevo para as elites?
Quem foi que disse que eu escrevo para o bas-fond?
Eu escrevo para a Maria de Todo o Dia.
Eu escrevo para o João Cara de Pão.
Para você, que está com este jornal na mão...
E de súbito descobre que a única novidade é a poesia.
O resto não passa de crônica policia - social - política.
E os jornais sempre proclamam que a "situação é crítica"!
Mas eu escrevo é para o João e a Maria,
Que quase sempre estão em situação crítica!
E por isso as minhas palavras são quotidianas como o pão nosso de cada dia.
E a minha poesia é natural e simples como a água bebida na concha da mão.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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QUINTANA, Mario. Hai Kai de outono. IN: A cor do invisível. 2a.ed., São Paulo, Globo, 1989, p.23

Uma folha, ai,
melancolicamente
cai!

Projeto Poesia às 2as.feiras

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MEIRELES, Cecília. Dia de chuva. IN: Mar absoluto e outros poemas; Retrato natural. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983. p.144 (Poiesis)

As espumas desmanchadas
sobem-me pela janela,
correndo em jogos selvagens
de corça e estrela.
Pastam nuvens no ar cinzento:
bois aéreos, calmos, tristes,
que lavram esquecimento.

Velhos telhados limosos
cobrem palavras, armários,
enfermidades, heroísmos...

Quem passa é como um funâmbulo,
equilibrado na lama
metendo os pés por abismos...

Dia tão sem claridade!
só se conhece que existes
pelo pulso dos relógios...

Se um morto agora chegasse
àquela porta e batesse,
com um guarda-chuva escorrendo,
e, como limo pela face,
ali ficasse batendo
-- ali ficasse batendo
aquela porta esquecida
sua mão de eternidade...

Tão frenético anda o mar
que não se ouviria o morto
bater à porta e chamar...

E o pobre ali ficaria
como debaixo da terra,
exposto à surdez do dia.

Pastam nuvens no ar cinzento.
Bois áereos que trabalham
no arado do esquecimento.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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ANDRADE, Carlos Drummond de. Política literária. IN: Alguma poesia. 11a.ed., Rio de Janeiro, Record, 2010, p.43

A Manuel Bandeira


O poeta municipal
discute com o poeta estadual
qual deles é capaz de bater o poeta federal.

Enquanto isso o poeta federal
tira ouro do nariz.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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QUINTANA, Mario. O silêncio. IN: A cor do invisível. 2a.ed., São Paulo, Globo, 1989. p.52

O mundo, às vezes, fica-me tão insignificativo
Como um filme que houvesse perdido de repente o som.
Vejo homens, mulheres: peixes abrindo e fechando a boca num aquário
Ou multidões: macacos pula-pulando nas arquibancadas dos estádios...

Mas o mais triste é essa tristeza toda colorida dos carnavais
Como a maquilagem das velhas prostitutas fazendo trottoir.
Às vezes eu penso que já fui um dia um rei imóvel no seu palanque,
Obrigado a ficar olhando
Intermináveis desfiles, torneios, procissões, tudo isso...

Oh! decididamente o meu reino não é deste mundo!
Nem do outro...

Projeto Poesia às 2as.feiras

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RICARDO, Cassiano. Cidadezinha de interior. IN: Martim Cererê. 23a.ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2006. p.178

Uma ermida e um curral
como que para dizer, por inocência,
que o Menino Jesus não nasceu entre rosas,
mas entre bois.

Logo depois brota a cidadezinha branca.
É uma menina, ainda descalça.

As casas tortas de janela azul
dançam de roda, de mãos dadas.

Há duas bandas de música, logo de começo,
uma da oposição e outra dos canários.
Todos os dias da semana são domingos de ramos.

Dentro da ermida
Nossa Senhora brinca de pular corda num arco-íris.

Cada enterro parece uma festa
e cada procissão lembra um rio de gente...
Não há iluminação, há muitas luas.
E os bois passeiam pelas ruas, fundadores.
Até que um dia o legislador das posturas municipais se impacienta
e manda proibir os bois de passearem nas ruas.
Como se a origem da cidadezinha branca não fosse um curral
E como se o Menino Jesus não houvesse nascido entre bois
Quem sabe se o legislador das posturas municipais
pensa que o Menino Jesus nasceu e…

Projeto Poesia às 2as.feiras

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MEIRELES, Cecília. Tudo acaba aqui dentro. IN: Mar absoluto e outros poemas; Retrato natural. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983. p.182 (Poiesis)

Tudo cabe aqui dentro:
vejo tua casa, tuas quintas de fruta,
as mulas deixando descarregarem seirões repletos,
e os cães de nomes antigos
ladrando majestosamente
para a noite aproximada.

Range a atafona sobre uma cantiga arcaica:
e os fusos ainda vão enrolando o fio
para a camisa, para a toalha, para o lençol.

Nesse fio vai o campo onde o vento saltou.
Vai o campo onde a noite deixou seu sono orvalhado.
Vai o sol com suas vestimentas de ouro
cavalgando esse imenso avião do céu.

Tudo cabe aqui dentro:
teu corpo era um espelho pensante do universo.
E olhavas para essa imagem, clarividente e comovida.

Foi do barro das flores, o teu rosto terreno,
e uns liquens de noite sem luzes
se enrolaram em tua cabeça de deusa rústica.

Mas puseram-te numa praia de onde os barcos saíam
para perderem-se.
Então, teus braços se abriram,
querendo levar-te mais longe:
porque eras a qu…

Projeto Poesia às 2as.feiras

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QUINTANA, Mario. O último viandante. IN: A cor do invisível. 2a.ed., São Paulo, Globo, 1989, p.12

Era um caminho que de tão velho, minha filha,
já nem sabia mais onde ia...
Era um caminho
velhinho,
perdido...
Não havia traços
de passos no dia
em que por acaso o descobri:
pedras e urzes iam cobrindo tudo.
O caminho agonizava, morria
sozinho...
Eu vi...
Porque são os passos que fazem os caminhos!

Projeto Poesia às 2as.feiras

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MEIRELES, Cecília. Balada de Ouro Preto. IN: Mar absoluto e outros poemas; Retrato natural. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1983. p.251

Parei a uma porta aberta
para mirar um ladrilho.
Veio de dentro um leproso
como quem sai de um jazigo.
Caminhava ao meu encontro,
sinistramente sorrindo.

Mas vi-lhe os braços de líquen
e as duas mãos desfolhadas,
que cauteloso escondia
nos fundos bolsos das calças.
Chamas de um secreto inferno
em seu sorriso oscilavam.

Fora menos triste a lepra
do que o fogo do sorriso.
E era linda aquela casa
com o vestíbulo vazio;
e era alegre aquela porta
de claro azulejo antigo.

Ó Santos da Idade Média,
descei por esta ladeira,
parai a esta porta suave,
que de azul toda se enfeita,
tocai estes braços fluidos
que vão sendo rosa e areia,
tornai-os firmes e pulcros,
com mãos lisas, dedos novos,
para que estes homens não fite
ninguém mais com os mesmos olhos,
e seja outro o seu sorriso
por saecula saeculorum.


Projeto Poesia às 2as.feiras

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RICARDO, Cassiano. Café expresso. IN: Martim Cererê. 23a.ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 2006. p.197
1 Café expresso - está escrito na porta. Entro com muita pressa. Meio tonto,  por haver acordado tão cedo... E pronto! parece um brinquedo... cai o café na xícara pra gente maquinalmente.
E eu sinto o gosto, o aroma, o sangue quente de São Paulo nesta pequena noite líquida e cheirosa que é minha xícara de café.
A minha xícara de café é o resumo de todas as coisas que vi na fazenda e me vem à memória apagada...
Na minha memória ainda tem um carro de bois a bater as porteiras da estrada... Na minha memória  pousou um pinhé a gritar: crapinhé! E passam uns homens que levam às costas jacás multicores com grãos de café. E piscam lá dentro, no fundo do meu coração, uns olhos negros de cabocla a olhar pra mim com seu vestido de alecrim e pés no chão.
E uma casinha cor de luar na tarde roxo-rosa... Um cuitelinho verde sussurrando enfiando o bico na calteia cor de sol que floriu no portão...
E o fazendeiro, calculan…

Projeto Poesia às 2as.feiras

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ANDRADE, Carlos Drummond de. Também já fui brasileiro. In: Alguma poesia. 11a.ed. Rio de Janeiro, Record, 2010. p.21

Eu também já fui brasileiro
moreno como vocês.
Ponteei viola, guiei forde
e aprendi na mesa dos bares
que o nacionalismo é uma virtude.
Mas há uma hora em que os bares se fecham
e todas as virtudes se negam.

Eu também já fui poeta.
Bastava olhar para mulher,
pensava logo nas estrelas
e outros substantivos celestes.
Mas eram tantas, o céu tamanho,
minha poesia perturbou-se.

Eu também já tive meu ritmo.
Fazia isto, dizia aquilo.
E meus amigos me queriam,
meus inimigos me odiavam.
Eu, irônico, deslizava,
satisfeito de ter meu ritmo.
Mas acabei confundindo tudo.
Hoje não deslizo mais não,
não sou irônico mais não,
não tenho ritmo mais não.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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QUINTANA, Mário. Hoje é outro dia. IN: A cor do invisível. São Paulo, Globo, 1989. p.5

Quando abro cada manhã a janela do meu quarto
É como se abrisse o mesmo livro
Numa página nova...

Projeto Poesia às 2as.feiras

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QUINTANA, Mário. Poema transitório. IN: Baú de espantos. Rio de Janeiro, Alfaguara, 2014. p.20
Eu que nasci na era da fumaça: -- trenzinho vagaroso com vagarosas paradas em cada estaçãozinha pobre para comprar pastéis pés de moleque sonhos -- principalmente sonhos! porque as moças da cidade vinham olhar o trem passar: elas suspirando maravilhosas viagens e a gente com um desejo súbito de ali ficar morando sempre... Nisto, o apito da locomotiva e o trem se afastando e o trem arquejando é preciso partir é preciso chegar é preciso partir é preciso chegar... Ah, como está vida é urgente! ... no entanto eu gostava era mesmo de partir... e -- até hoje -- quando acaso embarco para alguma parte acomodo-me no meu lugar fecho os olhos e sonho: viajar, viajar mas para parte nenhuma... viajar indefinidamente... como uma nave espacial perdida entre as estrelas.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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NETHO, Paulo ; IRUSTRA, Carla (Ilustr.) Quer saber. IN: Bolinho de chuva e outras miudezas. São Paulo, Peirópolis, 2011. p.26
Bem de leve -- de levezinho -- toquei as mãos secretas do menino Deus. Distraído, brincava no jardim do céu, o menino. Claro que viu. Me viu, sim! Até me piscou de revestrés, assim: umas duas, três vezes. Quer saber? Esse menino é o menino mais positivo de legal que jamais conheci outro igual e tchau.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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SILVA, Abel. Do bem e do mal. IN: Só uma palavra me devora: poesia reunida e inéditos. 3a.ed. Rio de Janeiro, Record, 2001. p.177
Não é de agora foi sempre assim da primeira semente o primeiro Caim.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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QUINTANA, Mário. Os ceguinhos. IN: Baú de espantos. Rio de Janeiro, Alfaguara, 2014. p.57
Um dia, um ceguinho de nascença... -- pois bem, para ser mais explícito e para conservar por mais algum tempo a sua passageira imagem neste mundo -- um dia numa daquelas nossas conversas de bar, o sanfonista Artur Eisner me confessou: "Bem sei que, para vocês, eu, teoricamente, estou nas trevas." Teoricamente?! -- pensei, num comovido espanto. Talvez no mesmo silencioso espanto com que os anjos escutam as palavras que digo  dentro da minha treva iluminada.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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QUINTANA, Mário. Espantos. IN: Baú de espantos. Rio de Janeiro, Alfaguara, 2014. p.39
Neste mundo de tantos espantos cheio das mágicas de Deus, O que existe de mais sobrenatural São os ateus...

Projeto Poesia às 2as.feiras

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MURRAY, Roseana; EICH, Cris (ilust.) Ciranda. IN: Brinquedos e brincadeiras. São Paulo, FTD, 2014. p.36
Ciranda, cirandinha, vamos todos cirandar, enquanto ainda dá tempo, a primeira estrela anuncia: A noite já vai chegar. Vamos dar meia-volta de mãos bem apertadas e corações entrelaçados, volta e meia vamos dar. O anel que tu me deste era vidro e se quebrou, o tempo parece de vidro, há que carregar com cuidado, o amor que tu me tinhas era pouco e se acabou, mas amor nunca se acaba, meia-volta, volta e meia, outro amor há de chegar.