Projeto Poesia às 2as.feiras

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RICARDO, Cassiano. Cidadezinha de interior. IN: Martim Cererê. 23a.ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2006. p.178

Uma ermida e um curral
como que para dizer, por inocência,
que o Menino Jesus não nasceu entre rosas,
mas entre bois.

Logo depois brota a cidadezinha branca.
É uma menina, ainda descalça.

As casas tortas de janela azul
dançam de roda, de mãos dadas.

Há duas bandas de música, logo de começo,
uma da oposição e outra dos canários.
Todos os dias da semana são domingos de ramos.

Dentro da ermida
Nossa Senhora brinca de pular corda num arco-íris.

Cada enterro parece uma festa
e cada procissão lembra um rio de gente...
Não há iluminação, há muitas luas.
E os bois passeiam pelas ruas, fundadores.
Até que um dia o legislador das posturas municipais se impacienta
e manda proibir os bois de passearem nas ruas.
Como se a origem da cidadezinha branca não fosse um curral
E como se o Menino Jesus não houvesse nascido entre bois
Quem sabe se o legislador das posturas municipais
pensa que o Menino Jesus nasceu entre rosas?

Se pensa, é por inocência.

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