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Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Lição de um gato siamês. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.449

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração 
      finita
      da minha precariedade

O tempo fora
de mim
             é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque efetivo
-- dura eternamente
   enquanto vivo

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)

Projeto Poesia as 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Reflexão. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.473

Está fora 
de meu alcance
o meu fim

Sei só até
onde sou

contemporâneo 
de mim




Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Dentro sem fora. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.393

A vida está
dentro da vida
em si mesma circunscrita
sem saída.

Nenhum riso
nem soluço
rompe
a barreira dos barulhos.

A vazão
é para o nada.

Por conseguinte
não vaza.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Barulho. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.373

Todo poema é feito de ar
apenas:
              a mão do poeta
              não rasga a madeira
              não fere
                            o metal
                            a pedra
             não tinge de azul
os dedos
quando escreve amanhã
ou brisa
ou blusa 
              de mulher.

O poema
é sem matéria palpável
           tudo
           o que há nele
           é barulho
                          quando rumoreja
                          ao sopro da leitura.




Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. O açúcar. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.165

O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.

Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,
dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem
aos vinte e sete anos
plantaram e colheram cana
que viraria açúcar.

Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.




Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. A alegria. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.295

O sofrimento não tem 
nenhum valor.
Não acende um halo
em volta de tua cabeça, não
ilumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que iluminaria
a lembrança ou a ilusão
de uma alegria).

Sofres tu, sofre
um cachorro ferido, um inseto
que o inseticida envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?

 A justiça é moral, a injustiça
não. A dor
te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos
espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entre fezes
querem estar contentes.



Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Cantiga para não morrer. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.222

Quando você for embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Na lagoa. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.412

A cidade
debruçada sobre
seus afazeres surda
de rock
não sabe ainda
que a garça voltou.

Faz pouco, longe
daqui entre aves
lacustres a notícia
correu: a lagoa
rodrigo de freitas
está assim de tainhas!
-- oba, vamos lá
dar o ar
de nossa graça,
disse a garça

e veio:

desceu
do céu azul
sobre uma pedra
do aterro
a branca filha das lagoas

e está lá agora
real e implausível
como o poema
que o gullar não consegue escrever

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Memória. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.189

menino no capinzal
                                caminha
nesta tarde e em outra outra
havida
          Entre capins e mata-pastos
          vai, pisa
          nas ervas mortas ontem
          e vivas hoje
          e revividas no clarão da lembrança 

          E há qualquer coisa azul que o ilumina
          e que não vem do céu, e se não vem
          do chão, vem
          decerto do mar batendo noutra tarde
          e no meu corpo agora
          -- um mar defunto que se acende o sabor
          de uma fruta
          ou a suja luz dos perfumes da vida
          ah vida!

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Maio 1964. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.169

Na leiteira a tarde se reparte
         em iogurtes, coalhadas, copos
         de leite
         e no espelho meu rosto. São
quatro horas da tarde, em maio.

Tenho 33 anos e uma gastrite. Amo 
a vida
        que é cheia de crianças, de flores
        e mulheres, a vida,
esse direito de estar no mundo,
        ter dois pés e mãos, uma cara
        e a fome de tudo, a esperança.
Esse direito de todos
        que nenhum ato
        institucional ou constitucional
        pode cassar ou legar.

Mas quantos amigos presos!
        quantos em cárceres escuros
        onde a tarde fede a urina e terror.
Há muitas famílias sem rumo nesta tarde
        nos subúrbios de ferro e gás
onde brinca irremida a infância da classe operária.

         Estou aqui. O espelho
não guardará a marca deste rosto,
         se simplesmente saio do lugar
         ou se morro
         se me matam.

         Estou aqui e não estarei, um dia,
e…

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Desastre. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.362

Há quem pretenda
      que seu poema seja
      mármore
      ou cristal -- o meu
o queria pêssego
              pera
              banana apodrecendo num prato
e se possível
numa varanda
onde pessoas trabalhem e falem
e donde se ouça
                          o barulho da rua.
              Ah quem me dera
              o poema podre!
a polpa fendida
             exposto
o avesso da voz
                          minando
             no prato
o licor a química
             das sílabas
                               o desintegrando-se cadáver
             das metáforas
             um poema
             como um desastre em curso.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Dois poemas chilenos. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.226

I

Quando cheguei a Santiago
o outono fugia das alamedas
feito um ladrão
                Latifúndios com nome de gente, famílias 
com nome de empresas
                                      também fugiam
                com dólares e dolores
                no coração
                Quando cheguei a Santiago em maio
                em plena revolução

II

Allende, em tua cidade
ouço cantar esta manhã os passarinhos
da primavera que chega.
Mas tu, amigo, já não os podes escutar

Em minha porta, os fascistas
pintaram uma cruz de advertência.
E tu, amigo, já não a podes apagar

No horizonte gorjeiam
esta manhã as metralhadoras
ta tirania que chega
                               para nos matar

E tu, amigo,
já nem as podes escutar.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Não há vagas. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.162

O preço do feijão não cabe no poema. O preço do arroz não cabe no poema. Não cabem no poema o gás a luz o telefone a sonegação do leite da carne do açúcar do pão
O funcionário público não cabe no poema com seu salário de fome sua vida fechada em arquivos. Como não cabe no poema o operário que esmerilha seu dia de aço e carvão nas oficinas escuras
-- porque o poema, senhores, está fechado: "não há vagas" Só cabe no poema o homem sem estômago a mulher de nuvens a fruta sem preço
        O poema, senhores,         não fede         nem cheira

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GULLAR, Ferreira. No mundo há muitas armadilhas. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.163

No mundo há muitas armadilhas
        e o que é armadilha pode ser refúgio
        e o que é refúgio pode ser armadilha

Tua janela, por exemplo
          aberta para o céu
          e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
          a bater antes de Cabral, antes de Tróia
          (há quatro séculos Tomás Bequimão
          tomou a cidade, criou a milícia popular
          e depois foi traído, preso, enforcado)

No mundo há muitas armadilhas
        e muitas bocas a te dizer
        que a vida é pouca
        que a vida é louca
        E por que não a Bomba? te perguntam
        Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
        que a vida é louca?

Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
          que não sabe
          que afoito se entranha à vida e quer
          a vida
          e busca o sol, a bola, fascinado vê
          o avião e indaga e ind…

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GULLAR, Ferreira. Adeus a Tancredo. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.385

Companheiro Tancredo Neves,
não vou chamar você de Excelência logo agora
quando, mais que  nosso presidente,
você é o irmão ferido
                                 e que se vai.

Foi você quem conduziu, de uma ponta a outra do país,
acima de nossa cabeça,
uma tocha de chama verde como a esperança.
                  Esperança é uma palavra gasta
mas não era a palavra, era a esperança mesma
                  que você carregava
                  e que ainda luzia em suas mãos hoje
                  no derradeiro momento
num quarto de hospital em São Paulo.
E quando suas mãos se apagaram,
                                                         essa chama
brilhou no céu da pátria nesse instante.

                 Pátria é uma palavra gasta,
mas pátria é terra, é mãe,
embora muitos de nós, milhões de nós,
ainda vagueiem pelas cidades e pelos campos,
                 sem o penhor de uma igualdade
que ha…

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GULLAR, Ferreira. Versos de entreter-se. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.384

À vida falta uma parte
-- seria o lado de fora --
pra que se visse passar
ao mesmo tempo que passa

e no final fosse apenas
um tempo de que não se acorda
não um sono sem resposta.


À vida falta uma porta.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Arte poética. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.336

Não quero morrer não quero
apodrecer no poema
que o cadáver das minhas tardes
não venha feder em tua manhã feliz
                        e o lume
que tua boca acenda acaso das palavras 
-- ainda que nascido da morte --
                         some-se
                         aos outros fogos do dia
aos barulhos da casa e da avenida
                         no presente veloz

Nada que se pareça
a pássaro empalhado múmia
de flor
dentro do livro
                         e o que da noite volte
volte em chamas
        ou em chaga

vertiginosamente como o jasmim
que num lampejo só
ilumina a cidade inteira

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. That is the question. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.495

Dois e dois são quatro.
Nasci cresci
para me converter em retrato?
em fonema? em morfema?
Aceito
ou detono o poema?


Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. A voz do poeta. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.297

Não é voz de passarinho
flauta do mato
viola

Não é voz de violão
clarinete pianola

É voz de gente
(na varanda? na janela?
na saudade? na prisão?)

É voz de gente -- poema:
fogo logro solidão

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Poema poroso. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.349

De terra te quero:
poema,
e no entanto iluminado.

De terra
o corpo perpassado de eclipses,
poroso
poema
de poeira --
onde berram
suicidas e perfumes;
assim te quero

sem rosto
e no entanto familiar
como o chão do quintal

(sombra de todos nós depois
e antes de nós
quando a galinha cacareja e cisca).

De terra
onde para sempre se apagará
a forma desta mão
por ora ardente.