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Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Traduzir-se. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.335


Uma parte de  mim
é todo mundo: outra parte é ninguém fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão: outra parte estranheza e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera: outra parte delira.

Uma parte de mim
almoça e janta: outra parte se espanta.

Uma parte de mim
é só vertigem: outra parte, linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte -- que é uma questão    de vida e morte --    será arte?


Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Fotografia de Mallarmé. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.438

é uma foto
premeditada 
como um crime

         basta
reparar no arranjo
das roupas os cabelos
a barba tudo
adrede preparado
-- um gesto e a manta
equilibrada sobre
os ombros
caíra -- e
especialmente a mão
com a caneta
detida acima da
folha em branco: tudo
à espera
da eternidade

         sabe-se
após o clique
a cena se desfez na
rua de Rome a vira voltou
a fluir imperfeita
mas
isso a foto não
captou que a foto
é a pose a suspensão
do tempo
     agora
     meras manchas
     no papel raso
mais eis que
teu olhar
encontra o dele
(Mallarmé) que
ali
do fundo
da morte

olha







Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Redundâncias. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.448

Ter medo da morte
é coisa dos vivos
o morto está livre
de tudo o que é vida

Ter apego ao mundo
é coisa dos vivos
para o morto não há
(não houve)
raios rios risos

E ninguém vive a morte
quer morto quer vivo
mera noção que existe
só enquanto existo


Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Meu povo, meu abismo. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.377

Meu povo é meu abismo.
Nele me perco:
a sua tanta dor me deixa
surdo e cego.

Meu povo é meu castigo
meu flagelo:
seu desamparo,
meu erro.

Meu povo é meu destino
meu futuro:
se ele não vira em mim
veneno ou canto --
                               apenas morro.



Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Bicho urbano. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.327

Se disser que prefiro morar em Pirapemas
        ou em outra qualquer pequena cidade
        do país 
        estou mentindo
ainda que lá se possa de manhã
lavar o rosto no orvalho
e o pão preserve aquele branco
sabor de alvorada

Não não quero viver em Pirapemas
Já me perdi
Como tantos outros brasileiros
me perdi, necessito
deste rebuliço de gente pelas ruas
e meu coração queima gasolina (da
comum)
              como qualquer outro motor urbano

A natureza me assusta.
Com seus matos sombrios suas águas
suas aves que são como aparições
me assusta quase tanto quanto
este abismo
                    de gases e de estrelas
aberto sob minha cabeça.





Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Glauber morto. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.351

O morto não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto

não está barbeado
não está penteado
não tem flor na lapela
um flor 
na calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse 
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.



Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Internação. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.442

Ele entrara em surto
e o pai o levava de
carro para
a clínica
ali no Humaitá numa
tarde atravessada
de brisas
e falou
           (depois de meses 
trancado no
fundo escuro de
sua alma)
           pai,
o vento no rosto
é sonho, sabia?

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Meu pai. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.440

meu pai foi
ao Rio se tratar de
um câncer (que
o mataria) mas
perdeu os óculos 
na viagem

Quando lhe levei
os óculos novos
comprados na Ótica
Fluminense ele
examinou o estojo com
o nome da loja dobrou
a nota de compra guardou-a
no bolso e falou:
quero ver
agora qual é o
sacana que vai dizer
que eu nunca estive
no Rio de Janeiro



Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Os vivos. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.455

Os vivos são vorazes
são glutões ferozes:
até dos mortos comem
carnes ossos vozes

Se devoram os mortos
devoram os outros vivos:
pelos olhos sexo
elogios, sorrisos

Os vivos são dotados
de famintas bocas:
devoram o que vêem,
o que cheiram e tocam

Os vivos são fornalhas
em sempre operação:
em sua mente e ventre
tudo vira carvão

O mar a pedra a manhã
são ali combustível:
o vivo, voraz, muda
o visível em visível

O mar a pedra a manhã
-- que ele queima em seus risos --
viram pele e cabelos
do corpo, que é ele vivo

e onde habita alguém
-- seja espírito ou não --
alimentado também
por essa combustão

que tudo vaporiza.
Mas que agora na pele
desta efêmera mão
é afago de brisa.



Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Lição de um gato siamês. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.449

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração 
      finita
      da minha precariedade

O tempo fora
de mim
             é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque efetivo
-- dura eternamente
   enquanto vivo

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)

Projeto Poesia as 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Reflexão. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.473

Está fora 
de meu alcance
o meu fim

Sei só até
onde sou

contemporâneo 
de mim




Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Dentro sem fora. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.393

A vida está
dentro da vida
em si mesma circunscrita
sem saída.

Nenhum riso
nem soluço
rompe
a barreira dos barulhos.

A vazão
é para o nada.

Por conseguinte
não vaza.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Barulho. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.373

Todo poema é feito de ar
apenas:
              a mão do poeta
              não rasga a madeira
              não fere
                            o metal
                            a pedra
             não tinge de azul
os dedos
quando escreve amanhã
ou brisa
ou blusa 
              de mulher.

O poema
é sem matéria palpável
           tudo
           o que há nele
           é barulho
                          quando rumoreja
                          ao sopro da leitura.




Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. O açúcar. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.165

O branco açúcar que adoçará meu café
nesta manhã de Ipanema
não foi produzido por mim
nem surgiu dentro do açucareiro por milagre.

Vejo-o puro
e afável ao paladar
como beijo de moça, água
na pele, flor
que se dissolve na boca. Mas este açúcar
não foi feito por mim.

Este açúcar veio
da mercearia da esquina e tampouco o fez o Oliveira,
dono da mercearia.
Este açúcar veio
de uma usina de açúcar em Pernambuco
ou no Estado do Rio
e tampouco o fez o dono da usina.

Este açúcar era cana
e veio dos canaviais extensos
que não nascem por acaso
no regaço do vale.

Em lugares distantes, onde não há hospital
nem escola,
homens que não sabem ler e morrem
aos vinte e sete anos
plantaram e colheram cana
que viraria açúcar.

Em usinas escuras,
homens de vida amarga
e dura
produziram este açúcar
branco e puro
com que adoço meu café esta manhã em Ipanema.




Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. A alegria. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.295

O sofrimento não tem 
nenhum valor.
Não acende um halo
em volta de tua cabeça, não
ilumina trecho algum
de tua carne escura
(nem mesmo o que iluminaria
a lembrança ou a ilusão
de uma alegria).

Sofres tu, sofre
um cachorro ferido, um inseto
que o inseticida envenena.
Será maior a tua dor
que a daquele gato que viste
a espinha quebrada a pau
arrastando-se a berrar pela sarjeta
sem ao menos poder morrer?

 A justiça é moral, a injustiça
não. A dor
te iguala a ratos e baratas
que também de dentro dos esgotos
espiam o sol
e no seu corpo nojento
de entre fezes
querem estar contentes.



Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Cantiga para não morrer. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.222

Quando você for embora,
moça branca como a neve,
me leve.

Se acaso você não possa
me carregar pela mão,
menina branca de neve,
me leve no coração.

Se no coração não possa
por acaso me levar,
moça de sonho e de neve,
me leve no seu lembrar.

E se aí também não possa
por tanta coisa que leve
já viva em seu pensamento,
menina branca de neve,
me leve no esquecimento.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Na lagoa. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.412

A cidade
debruçada sobre
seus afazeres surda
de rock
não sabe ainda
que a garça voltou.

Faz pouco, longe
daqui entre aves
lacustres a notícia
correu: a lagoa
rodrigo de freitas
está assim de tainhas!
-- oba, vamos lá
dar o ar
de nossa graça,
disse a garça

e veio:

desceu
do céu azul
sobre uma pedra
do aterro
a branca filha das lagoas

e está lá agora
real e implausível
como o poema
que o gullar não consegue escrever

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Memória. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.189

menino no capinzal
                                caminha
nesta tarde e em outra outra
havida
          Entre capins e mata-pastos
          vai, pisa
          nas ervas mortas ontem
          e vivas hoje
          e revividas no clarão da lembrança 

          E há qualquer coisa azul que o ilumina
          e que não vem do céu, e se não vem
          do chão, vem
          decerto do mar batendo noutra tarde
          e no meu corpo agora
          -- um mar defunto que se acende o sabor
          de uma fruta
          ou a suja luz dos perfumes da vida
          ah vida!

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Maio 1964. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.169

Na leiteira a tarde se reparte
         em iogurtes, coalhadas, copos
         de leite
         e no espelho meu rosto. São
quatro horas da tarde, em maio.

Tenho 33 anos e uma gastrite. Amo 
a vida
        que é cheia de crianças, de flores
        e mulheres, a vida,
esse direito de estar no mundo,
        ter dois pés e mãos, uma cara
        e a fome de tudo, a esperança.
Esse direito de todos
        que nenhum ato
        institucional ou constitucional
        pode cassar ou legar.

Mas quantos amigos presos!
        quantos em cárceres escuros
        onde a tarde fede a urina e terror.
Há muitas famílias sem rumo nesta tarde
        nos subúrbios de ferro e gás
onde brinca irremida a infância da classe operária.

         Estou aqui. O espelho
não guardará a marca deste rosto,
         se simplesmente saio do lugar
         ou se morro
         se me matam.

         Estou aqui e não estarei, um dia,
e…

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Desastre. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.362

Há quem pretenda
      que seu poema seja
      mármore
      ou cristal -- o meu
o queria pêssego
              pera
              banana apodrecendo num prato
e se possível
numa varanda
onde pessoas trabalhem e falem
e donde se ouça
                          o barulho da rua.
              Ah quem me dera
              o poema podre!
a polpa fendida
             exposto
o avesso da voz
                          minando
             no prato
o licor a química
             das sílabas
                               o desintegrando-se cadáver
             das metáforas
             um poema
             como um desastre em curso.