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Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. O escravo. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José 
Olympio, 2001. p.85

Detrás da flor me subjugam, atam-se os pés e as mãos. E um pássaro vem cantar para que eu me negue.
Mas eu sei que a única haste do tempo é o sulco do riso na terra - a boca espedaçada que continua falando.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Manhã de novembro. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.469

Meu gato siamês
                         (de veludo                          e garras,                          cheio de sons)
deita-se ao sol                        (da morte,                        sabemos nós)


displicentes

e eterno.

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Perda. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.358

A Mário Pedrosa
Foi no dia seguinte. Na janela pensei: Mário não existe mais. Com seu sorriso o olhar afetuoso a utopia                                        entranhada na carne                                        enterraram-no e com sua brancas mãos de jovem de 82 anos.


Penso - e vejo acima dos edifícios mais ou menos à altura do Leme uma gaivota que voa na manhã radiante e lembro de um verso de Burnett: "no acrobático                                                        milagre do vôo".
E Mário? A gaivota voa fora da morte:                       e dizer que voa é pouco:                                          ela faz o vôo                                          com asa e brisa                                          o realiza                       num  mundo onde ele já não está                        para sempre.
E penso: quantas manhãs virão ainda na história da Terra? É perda demai…

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Visita. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.441




no dia de
finados ele foi
ao cemitério
porque era o único
lugar do mundo onde
podia estar 
perto do filho mas
diante daquele
bloco  negro
de pedra
impenetrável
entendeu
que nunca mais
poderia alcançá-lo

Então
apanhou do chão um
pedaço amarrotado
de papel escreveu
eu te amo filho
pôs em cima do
mármore sob uma
flor
e saiu soluçando



Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Oswald morto. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.73

Enterraram ontem em São Paulo
um anjo antropófago
de asas de folha de bananeira
(mais um nome que se mistura à nossa vegetação tropical)

As escolas e as usinas paulistas
não se detiverem
para olhar o corpo do poeta que anunciara a civilização do ócio
Quanto  mais pressa  mais vagar

O lenço em que pela última vez
assoou o nariz
era uma bandeira nacional

NOTA:
Fez sol o dia inteiro em Ipanema
Oswald de Andrade ajudou o crespúsculo
hoje domingo 24 de outubro de 1954

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. O lampejo. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.356

O poema não voa de asa-delta
não mora na Barra
não frequenta o Maksoud.
Pra falar a verdade, o poema não voa:
anda a pé
e acaba de ser expulso da fazenda Utupu
                                           pela polícia.

Como mal dorme mal cheira a suor,
parece demais com o povo:
                                            é assaltante?
                                            é posseiro?
                                            é vagabundo?
frequentemente o detêm para averiguações
          às vezes o espancam
          às vezes o matam
          às vezes o resgatam
          da merda
                         por um dia
e o fazem sorrir diante das câmeras da TV
de banho tomado.

O poema se vende
                se corrompe
confia no governo
desconfia
de repente se zanga
e quebra trezentos ônibus nas ruas de Salvador.

O poema é confuso
mas tem o rosto da história brasileira:
               tisnado de sol
   …

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Fim. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.445

Como não havia ninguém
na casa aquela
terça-feira tudo
é suposição: teria
tomado seu costumeiro
banho
de imersão por volta
de meio-dia e trinta e
de cabelos ainda
úmidos
deitou-se na cama para
descansar não 
para morrer
        queria

dormir um pouco
apenas isso e 
assim não lhe
terá passado pela
mente - até 
aquele último segundo
antes de
se apagar no
silêncio -- que
jamais voltaria
ao ruidoso mundo
da vida

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GULLAR, Ferreira. Questão pessoal. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.376
Não interessa
a ninguém
(talvez)
isso 
de que já falei
que o poema se nega
a ser poema.
                    Não interessa
                    talvez
porque se a poesia
é universal
o poema é
uma questão pessoal
                     (de mim comigo
                     de voz comigo
                     de voz
                     que não quer voar
                     não quer
                     saltar
                              acima
do rio escuro,
                      prateada!)

essa palavra avesso esse
verso
espesso mais que pelo
essa pele-
                 palavra
que envolve a voz
e voa ao revés
tão rente a meu corpo
feito um sopro --
                           o poema
que em si mesmo se solve (em meu mel) 

Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Traduzir-se. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.335


Uma parte de  mim
é todo mundo: outra parte é ninguém fundo sem fundo.

Uma parte de mim
é multidão: outra parte estranheza e solidão.

Uma parte de mim
pesa, pondera: outra parte delira.

Uma parte de mim
almoça e janta: outra parte se espanta.

Uma parte de mim
é só vertigem: outra parte, linguagem.

Traduzir uma parte
na outra parte -- que é uma questão    de vida e morte --    será arte?


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GULLAR, Ferreira. Fotografia de Mallarmé. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.438

é uma foto
premeditada 
como um crime

         basta
reparar no arranjo
das roupas os cabelos
a barba tudo
adrede preparado
-- um gesto e a manta
equilibrada sobre
os ombros
caíra -- e
especialmente a mão
com a caneta
detida acima da
folha em branco: tudo
à espera
da eternidade

         sabe-se
após o clique
a cena se desfez na
rua de Rome a vira voltou
a fluir imperfeita
mas
isso a foto não
captou que a foto
é a pose a suspensão
do tempo
     agora
     meras manchas
     no papel raso
mais eis que
teu olhar
encontra o dele
(Mallarmé) que
ali
do fundo
da morte

olha







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GULLAR, Ferreira. Redundâncias. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.448

Ter medo da morte
é coisa dos vivos
o morto está livre
de tudo o que é vida

Ter apego ao mundo
é coisa dos vivos
para o morto não há
(não houve)
raios rios risos

E ninguém vive a morte
quer morto quer vivo
mera noção que existe
só enquanto existo


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GULLAR, Ferreira. Meu povo, meu abismo. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.377

Meu povo é meu abismo.
Nele me perco:
a sua tanta dor me deixa
surdo e cego.

Meu povo é meu castigo
meu flagelo:
seu desamparo,
meu erro.

Meu povo é meu destino
meu futuro:
se ele não vira em mim
veneno ou canto --
                               apenas morro.



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GULLAR, Ferreira. Bicho urbano. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.327

Se disser que prefiro morar em Pirapemas
        ou em outra qualquer pequena cidade
        do país 
        estou mentindo
ainda que lá se possa de manhã
lavar o rosto no orvalho
e o pão preserve aquele branco
sabor de alvorada

Não não quero viver em Pirapemas
Já me perdi
Como tantos outros brasileiros
me perdi, necessito
deste rebuliço de gente pelas ruas
e meu coração queima gasolina (da
comum)
              como qualquer outro motor urbano

A natureza me assusta.
Com seus matos sombrios suas águas
suas aves que são como aparições
me assusta quase tanto quanto
este abismo
                    de gases e de estrelas
aberto sob minha cabeça.





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GULLAR, Ferreira. Glauber morto. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.351

O morto não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto

não está barbeado
não está penteado
não tem flor na lapela
um flor 
na calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse 
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.



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GULLAR, Ferreira. Internação. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.442

Ele entrara em surto
e o pai o levava de
carro para
a clínica
ali no Humaitá numa
tarde atravessada
de brisas
e falou
           (depois de meses 
trancado no
fundo escuro de
sua alma)
           pai,
o vento no rosto
é sonho, sabia?

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GULLAR, Ferreira. Meu pai. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.440

meu pai foi
ao Rio se tratar de
um câncer (que
o mataria) mas
perdeu os óculos 
na viagem

Quando lhe levei
os óculos novos
comprados na Ótica
Fluminense ele
examinou o estojo com
o nome da loja dobrou
a nota de compra guardou-a
no bolso e falou:
quero ver
agora qual é o
sacana que vai dizer
que eu nunca estive
no Rio de Janeiro



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GULLAR, Ferreira. Os vivos. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.455

Os vivos são vorazes
são glutões ferozes:
até dos mortos comem
carnes ossos vozes

Se devoram os mortos
devoram os outros vivos:
pelos olhos sexo
elogios, sorrisos

Os vivos são dotados
de famintas bocas:
devoram o que vêem,
o que cheiram e tocam

Os vivos são fornalhas
em sempre operação:
em sua mente e ventre
tudo vira carvão

O mar a pedra a manhã
são ali combustível:
o vivo, voraz, muda
o visível em visível

O mar a pedra a manhã
-- que ele queima em seus risos --
viram pele e cabelos
do corpo, que é ele vivo

e onde habita alguém
-- seja espírito ou não --
alimentado também
por essa combustão

que tudo vaporiza.
Mas que agora na pele
desta efêmera mão
é afago de brisa.



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GULLAR, Ferreira. Lição de um gato siamês. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.449

Só agora sei
que existe a eternidade:
é a duração 
      finita
      da minha precariedade

O tempo fora
de mim
             é relativo
mas não o tempo vivo:
esse é eterno
porque efetivo
-- dura eternamente
   enquanto vivo

E como não vivo
além do que vivo
não é
tempo relativo:
dura em si mesmo
eterno (e transitivo)

Projeto Poesia as 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Reflexão. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.473

Está fora 
de meu alcance
o meu fim

Sei só até
onde sou

contemporâneo 
de mim