Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Glauber morto. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.351

O morto não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto

não está barbeado
não está penteado
não tem flor na lapela
um flor 
na calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse 
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.



Alguns bons motivos para ler Drummond a vida inteira

Há muitos poetas bons no século XX no mundo todo, alguns realmente bons e um grupo seleto de cinco ou seis que são a base da poesia do século passado. Para nossa alegria, entre eles, está o mineiro Carlos Drummond de Andrade.
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Seria impossível – até inútil – tentar uma definição da abrangente obra de Drummond. Sua poesia é forte, complexa, sem deixar de ser acessível ao leitor comum. Podemos encontrar poemas sobre todos os temas possíveis, temáticas dos poetas clássicos até angústias contemporâneas. Ele versou sobre a existência, refletindo o sentido da vida e pondo a cada novo livro uma nova questão acerca da grande questão. Em todos os livros, de “Alguma Poesia” a “Farewell”, toca nesse ponto caro à Poesia. Solidão, angústia e a existência são postos em xeque inúmeras vezes. Em A bruxa, o poeta diz:
Nesta cidade do Rio,
de dois milhões de habitantes,
estou sozinho no quarto,
estou sozinho na América.
Drummond também tratou do passado – pessoal e nacional. Ao investigar sua infância em Itabira, o poeta também mostrou a decadência e o desaparecimento de um mundo que o criou – mas pareceu. O mundo das fazendas e dos coronéis, o mundo no qual o poder era exercido através da força e da tradição, desaparece. Em Retrato de família, vemos a memória pessoal e coletiva perecendo juntas:
Este retrato de família
Está um tanto empoeirado.
Já não se vê no rosto do pai
Quanto dinheiro ele ganhou.
Nas mãos dos tios não se percebem
As viagens que ambos fizeram.
A avó ficou lisa e amarela,
Sem memórias da monarquia.
Drummond percorreu, assim como muitos escritores da sua geração, um caminho político dentro da sua obra. Em A rosa do povo, um dos seus livros mais famosos, há uma gostosa mistura do eu-lírico e questionador do poeta junto a um engajamento de esquerda. Em meio e término da Segunda Guerra Mundial, Drummond questiona os problemas sócio-históricos do país e do mundo. Sua angústia se transforma em engajamento. Poemas como A morte do leiteiro e O medo são alguns dos exemplos mais conhecidos.
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Poderíamos ficar horas e horas falando sobre a poesia de Drummond, suas facetas, sua genialidade, seu valor e elencando dezenas de razões para lê-lo a vida inteira. Mas hoje vamos encerrar com este intocável:
Quando nasci, um anjo torto
desses que vivem na sombra
disse: Vai, Carlos! ser gauche na vida.
As casas espiam os homens
que correm atrás de mulheres.
A tarde talvez fosse azul,
não houvesse tantos desejos.
O bonde passa cheio de pernas:
pernas brancas pretas amarelas.
Para que tanta perna, meu Deus,
pergunta meu coração.
Porém meus olhos
não perguntam nada.
O homem atrás do bigode
é sério, simples e forte.
Quase não conversa.
Tem poucos, raros amigos
o homem atrás dos óculos e do bigode.
Meu Deus, por que me abandonaste
se sabias que eu não era Deus,
se sabias que eu era fraco.
Mundo mundo vasto mundo
se eu me chamasse Raimundo
seria uma rima, não seria uma solução.
Mundo mundo vasto mundo,
mais vasto é meu coração.
Eu não devia te dizer
mas essa lua
mas esse conhaque
botam a gente comovido como o diabo.
Texto de  – Trecho extraído – de Homo Literatus
Fonte:http://www.portalraizes.com/alguns-bons-motivos-para-ler-drummond-a-vida-inteira/
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