Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Maio 1964. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.169

Na leiteira a tarde se reparte
         em iogurtes, coalhadas, copos
         de leite
         e no espelho meu rosto. São
quatro horas da tarde, em maio.

Tenho 33 anos e uma gastrite. Amo 
a vida
        que é cheia de crianças, de flores
        e mulheres, a vida,
esse direito de estar no mundo,
        ter dois pés e mãos, uma cara
        e a fome de tudo, a esperança.
Esse direito de todos
        que nenhum ato
        institucional ou constitucional
        pode cassar ou legar.

Mas quantos amigos presos!
        quantos em cárceres escuros
        onde a tarde fede a urina e terror.
Há muitas famílias sem rumo nesta tarde
        nos subúrbios de ferro e gás
onde brinca irremida a infância da classe operária.

         Estou aqui. O espelho
não guardará a marca deste rosto,
         se simplesmente saio do lugar
         ou se morro
         se me matam.

         Estou aqui e não estarei, um dia,
em parte alguma.
        Que importa, pois?
        A luta comum me acende o sangue
        e me bate no peito
        como o coice de uma lembrança.



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