Projeto Poesia às 2as.feiras


GULLAR, Ferreira. No mundo há muitas armadilhas. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.163

No mundo há muitas armadilhas
        e o que é armadilha pode ser refúgio
        e o que é refúgio pode ser armadilha

Tua janela, por exemplo
          aberta para o céu
          e uma estrela a te dizer que o homem é nada
ou a manhã espumando na praia
          a bater antes de Cabral, antes de Tróia
          (há quatro séculos Tomás Bequimão
          tomou a cidade, criou a milícia popular
          e depois foi traído, preso, enforcado)

No mundo há muitas armadilhas
        e muitas bocas a te dizer
        que a vida é pouca
        que a vida é louca
        E por que não a Bomba? te perguntam
        Por que não a Bomba para acabar com tudo, já
        que a vida é louca?

Contudo, olhas o teu filho, o bichinho
          que não sabe
          que afoito se entranha à vida e quer
          a vida
          e busca o sol, a bola, fascinado vê
          o avião e indaga e indaga

A vida é pouca
a vida é louca
mas não há senão ela.
E não te mataste, essa é a verdade.

Estás preso à vida como numa jaula.
Estamos todos presos
nesta jaula que Gagárin foi o primeiro a ver
de fora e nos dizer: é azul.
E já o sabíamos, tanto
que não te mataste e não vais
te matar
e aguentaste até o fim.

O certo é que nesta jaula há os que têm
e os que não têm
há os que têm tanto que sozinhos poderiam
alimentar a cidade
e os que não têm para o almoço de hoje

A estrela mente
o mar sofisma. De fato,
o homem está preso à vida e precisa viver
o homem tem fome
e precisa comer
o homem tem filhos
e precisa criá-los
Há muitas armadilhas no mundo e é preciso quebrá-las.



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