Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Glauber morto. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.351

O morto não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto

não está barbeado
não está penteado
não tem flor na lapela
um flor 
na calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse 
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.



Projeto Poesia às 2as.feiras



GULLAR, Ferreira. Adeus a Tancredo. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.385

Companheiro Tancredo Neves,
não vou chamar você de Excelência logo agora
quando, mais que  nosso presidente,
você é o irmão ferido
                                 e que se vai.

Foi você quem conduziu, de uma ponta a outra do país,
acima de nossa cabeça,
uma tocha de chama verde como a esperança.
                  Esperança é uma palavra gasta
mas não era a palavra, era a esperança mesma
                  que você carregava
                  e que ainda luzia em suas mãos hoje
                  no derradeiro momento
num quarto de hospital em São Paulo.
E quando suas mãos se apagaram,
                                                         essa chama
brilhou no céu da pátria nesse instante.

                 Pátria é uma palavra gasta,
mas pátria é terra, é mãe,
embora muitos de nós, milhões de nós,
ainda vagueiem pelas cidades e pelos campos,
                 sem o penhor de uma igualdade
que havemos de conquistar com braço forte.
                 Pátria é uma palavra gasta
mas no seio dela não descansarás, Tancredo amigo,
no chão macio de São João Del Rei,
amado pelo povo e à luz do céu profundo.

                 Povo também é uma palavra gasta
mas o povo -- o povo mesmo -- despertou
quando lhe prometeste uma nova República,
                 iluminada ao sol do novo mundo.

E ela virá. E tu a construirás conosco,
erguendo nossos braços, cantando em nossa boca,
                 caindo e levantando como este povo
em que -- ao morrer -- te transformaste.

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