Projeto Poesia às 2as.feiras

Imagem
GULLAR, Ferreira. Glauber morto. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.351

O morto não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto

não está barbeado
não está penteado
não tem flor na lapela
um flor 
na calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse 
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.



Projeto Poesia às 2as.feiras

Foto: Thiago Almeida (Projeto Mulheres Sempre Vivas)
GULLAR, Ferreira. Uma nordestina. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.379


Ela é uma pessoa

no mundo nascida.
Como toda pessoa
é dona da vida.

Não importa a roupa
de que está vestida.
Não importa a alma
aberta em ferida.
Ela é uma pessoa 
e nada a fará
desistir da vida.


Nem o sol de inferno
a terra ressequida
a falta de amor
a falta de comida.
É mulher é mãe:
rainha da vida.

De pés na poeira
de trapos vestida
é uma rainha
e parece mendiga:
a pedir esmolas
a fome a obriga.

Algo está errado
nesta nossa vida:
ela é uma rainha
e não há quem diga.
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