Projeto Poesia às 2as.feiras

Imagem
GULLAR, Ferreira. Oswald morto. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.73

Enterraram ontem em São Paulo
um anjo antropófago
de asas de folha de bananeira
(mais um nome que se mistura à nossa vegetação tropical)

As escolas e as usinas paulistas
não se detiverem
para olhar o corpo do poeta que anunciara a civilização do ócio
Quanto  mais pressa  mais vagar

O lenço em que pela última vez
assoou o nariz
era uma bandeira nacional

NOTA:
Fez sol o dia inteiro em Ipanema
Oswald de Andrade ajudou o crespúsculo
hoje domingo 24 de outubro de 1954

Projeto Poesia às 2as.feiras


JUNQUEIRA, Sonia ; FARGAS, Flávio (ilust.) Poesia na varanda. Belo Horizonte, Autêntica, 2012. 24p.

Brotou do chão a poesia
na forma de uma plantinha
espigada, perfumosa,
se abrindo toda para mim:
mensageiro da alegria,
era um pé de alecrim
que dourou a minha vida...

Passou por mim a poesia
na forma de uma gatinha
amarela, tão macia!,
uma bola peludinha
que chegou bem de mansinho...
Batizei-a de Chiquinha,
fiquei com ela pra mim.

Entrou em mim a poesia
na forma de uma canção
que falava de uma rua
com pedrinhas de brilhantes
e de um anjo solitário
que vivia por ali
e roubou um coração.

Gritou no mato a poesia
quando caiu a noitinha:
era um concerto de grilos,
tantos astros em seresta,
pois era dia de festa,
e dentro da boca da noite
cantaram um coro sem fim...

Brilhou em mim a poesia
na forma de lua cheia
e de um ceu estrelado
despencando no telhado
de zinco do avarandado,
pronto para ser pisado
por alguém bem distraído.

Cresceu em mim a poesia
na forma de uma tristeza,
um chorinho derramado
no silêncio da varanda.
Veio vindo, foi chegando
-- carregada pelo vento? --
e tomou conta de mim.

Caiu do ceu a poesia
na forma de uma chuvinha,
pingos grossos, cheiro doce,
que molhou as redondezas,
encharcou os meus cabelos,
inundou a minha vida
e levou minha tristeza.

Sorriu pra mim a poesia
na forma de um amigo
-- mão estendida, carinho,
e estar juntos, quietinhos
ou ouvindo, ou contando,
ou rindo e barulhando...
e abraçou minha vida.

Me arrebatou a poesia
trazida pelas palavras
abrigadas entre as páginas
do livro que alguém lia
e que deixou por ali:
mundo entrando pelos olhos,
enriqueceu minha vida.

Agora, sempre que quero
saber cadê a poesia,
dou um pulo na varanda,
me debruço -- e espero:
quem sabe de repente
ela volta, e simplesmente,
vem contar por onde anda...

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