Projeto Poesia às 2as.feiras

Imagem
GULLAR, Ferreira. Glauber morto. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.351

O morto não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto

não está barbeado
não está penteado
não tem flor na lapela
um flor 
na calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse 
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.



Projeto Poesia às 2as.feiras


CAMARGO, Luis; ilustrado pelo autor. Chuchu. IN: O cata-vento e o ventilador. 6a.ed., São Paulo, FTD, 1992. p.24

Tirei o chuchu do pé
e o coloquei em cima
da geladeira.

O chuchu não ficou
parado,
encolhidinho
no seu canto,
não:

O chuchu começou a brotar.

Eu perguntei:
-- Com esse frio,
sem chuva,
sem terra,
sem nada,
como é que você consegue brotar?

O chuchu olhou pra mim
e respondeu:
-- Para crescer
é preciso duas coisas:
sol e vontade.
Sol tem todo dia,
é só abrir a janela
e deixar entrar.
Vontade está dentro da gente.

Eu ia perguntar outras coisas
mas o chuchu falou:
-- Agora eu preciso trabalhar!

E continuou a brotar.
Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Busque você mesmo!