Projeto Poesia às 2as.feiras

Imagem
GULLAR, Ferreira. O lampejo. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.356

O poema não voa de asa-delta
não mora na Barra
não frequenta o Maksoud.
Pra falar a verdade, o poema não voa:
anda a pé
e acaba de ser expulso da fazenda Utupu
                                           pela polícia.

Como mal dorme mal cheira a suor,
parece demais com o povo:
                                            é assaltante?
                                            é posseiro?
                                            é vagabundo?
frequentemente o detêm para averiguações
          às vezes o espancam
          às vezes o matam
          às vezes o resgatam
          da merda
                         por um dia
e o fazem sorrir diante das câmeras da TV
de banho tomado.

O poema se vende
                se corrompe
confia no governo
desconfia
de repente se zanga
e quebra trezentos ônibus nas ruas de Salvador.

O poema é confuso
mas tem o rosto da história brasileira:
               tisnado de sol
   …

Projeto Poesia às 2as.feiras


BELINKY, Tatiana ; TEIXEIRA, Elisabeth. Limeriques da coroa implicante. São Paulo, Paulinas, 2006. 15p. (Cavalo marinho. Série Re-verso)

Confesso que sou exigente
Nem tudo me deixa contente
Me dizem, "Coroa,
Tu implicas à toa" -- 
Mas sei com que implico, viu, gente!

Coisas com que implico e não gosto
É bafo de fumo no rosto!
-- Se tu queres fumar --
Sopra fumo pro ar --
Não me imponhas esse desgosto!

Quem as minhas coisas pegar
Sem repô-las no mesmo lugar
Me irrita de fato!
Não deixo barato -- 
Não posso deixar de implicar!

Com quem vive sempre a falar
Andando, no seu celular,
Em casa e na rua,
No carro e "na lua",
Implico sim, não vou negar!

Implico e não acho bonito --
Até acho pra lá de esquisito --
Pra livrar um dente
Usar de repente
A unha em lugar de palito.

Implico com moça educada
Bonita e bem arrumada
Que, toda coquete,
Rumina chiclete,
Com a boca aberta e pintada.

Implico com um infeliz
(Que pensa que sabe o que diz)
Que funga e espirra,
E que só de birra
Não quer assoar o nariz.

Implico com quem, sem um fim,
Pergunta, "Te lembras de mim?
Qual é o meu nome?"
Dizer -- "Vê se some!"
Quero eu responder, isso sim!

Implico com o desavisado
Que me estende a mão, enfastiado,
(Sem ser cordial,
Apenas formal)
Mão mole, qual trapo molhado.

Com quem leva livro emprestado
(Pra quem devolver "é pecado!")
Figura danosa --
Eu fico furiosa!
Implico! É este o recado.

Será que eu já disse o bastante?
Dá pra perceber num instante
Quem sem discutir
Tenho que admitir:
Sou uma "coroa implicante"...

Mas entre parênteses, digo --
Veja se concorda comigo:
Na realidade
Há certa verdade
Nas tais implicâncias, amigo!

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Busque você mesmo!

Programa Agentes de Leitura