Projeto Poesia às 2as.feiras

Imagem
GULLAR, Ferreira. Oswald morto. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.73

Enterraram ontem em São Paulo
um anjo antropófago
de asas de folha de bananeira
(mais um nome que se mistura à nossa vegetação tropical)

As escolas e as usinas paulistas
não se detiverem
para olhar o corpo do poeta que anunciara a civilização do ócio
Quanto  mais pressa  mais vagar

O lenço em que pela última vez
assoou o nariz
era uma bandeira nacional

NOTA:
Fez sol o dia inteiro em Ipanema
Oswald de Andrade ajudou o crespúsculo
hoje domingo 24 de outubro de 1954

Projeto Poesia às 2as.feiras


LISBOA, Henriqueta ; CRUZ, Nelson (ilust.) Os burrinhos. IN: O menino poeta. São Paulo, Peirópolis, 2008, p.100

Os burrinhos orelhudos
carregam livros no lombo.
Pela esquerda, de mistura,
pendem dois grossos Camões.
Do outro lado se penduram
infólios de São Jerônimo.
Os burrinhos orelhudos
irmãos do asno de Balaão.

À conta dos pobres bichos
por desfiladeiros hiantes
sobem Homero e Virgílio
para altíssimas estantes.

Sobem os mestres do estilo
volumosos e triunfantes.
Dariam queixa os burrinhos
se o anjo tivessem por diante.

Custam prata, custam ouro,
livros com armas de Antuérpia,
de Roma, de Varatojo.

De Elzevir a água com as flechas,
de Grifo o excelso condor,
pesa que os burrinhos levem
sem a experiência do voo.

Entre a natureza e a glória
os liames fortes da graça.
Rompendo os cascos na rocha
ai! que os burrinhos já falam.
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