Projeto Poesia às 2as.feiras

Imagem
GULLAR, Ferreira. Glauber morto. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.351

O morto não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto

não está barbeado
não está penteado
não tem flor na lapela
um flor 
na calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse 
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.



Projeto Poesia às 2as.feiras


BANDEIRA, Pedro (Adapt.); IWASHITA, Cecília (ilust.) A roupa nova do rei. São Paulo, Moderna, 2006. 31p. (Clássicos infantis)

Lá num reino bem distante,
muito, muito tempo atrás,
tinha um rei muito orgulhoso
e vaidoso até demais.

-- Meu casaco está horrível!
Já usei mais de uma vez.
Quero um que seja novo.
Ou melhor, quero mais três!

O ministro, obediente,
ia logo dizer sim,
e mandava vir casacos
feitos de ouro e cetim.

Foi então que apareceram
dois espertos trapaceiros:
-- Somos grandes alfaiates,
dois artistas verdadeiros.

-- Conhecemos o segredo
do tecido da Verdade!
É um pano especial,
desmascara a maldade!

-- Roupa feita com esse pano
só não vê o mentiroso,
o injusto, o incapaz,
tolo, burro e preguiçoso.

-- Mas quem for inteligente,
justo, honesto e muito humano,
com certeza notará
a beleza desse pano!

Quando o rei soube do caso,
quis depressa, sem demora,
os artistas fabulosos
contratar na mesma hora.

No palácio do vaidoso,
os dois foram se instalar.
E pediram ouro e joias,
para o pano fabricar.

A fingir trabalho duro,
todo o tempo eles passavam.
Num caixote escondido,
todo o ouro eles guardavam.

-- Como vai a nova roupa? --
quis o rei ficar sabendo.
-- Vá até lá, caro barão,
ver o que estão fazendo.

O barão, admirado, 
não viu nada no tear.
Mas pra não passar por bobo,
resolveu assim falar:

-- Que tecido fabuloso!
Mas que pano magistral!
Acho que o rei vai usá-lo
no desfile nacional!

Quando a vez foi do ministro,
também nada ele enxergou.
-- Mas que cores mais bonitas! --
foi assim que ele falou.

-- Vou ver se a roupa está pronta --
disse o rei por sua vez
-- que o desfile nacional
vai ser no próximo mês.

Assustado, o rei não viu
o que estavam costurando,
mas também não suspeitou
que o estavam enganando.

Bem surpreso, o rei pensou:
"Que destino mafazejo!
Vão pensar que eu sou cretino,
se eu disser que nada vejo!"

-- Ora, mas que maravilha!
Isso é que é roupa de rei.
São artistas verdadeiros,
não foi o que eu falei?

Na manhã do tal desfile,
os dois os foram vestir.
E o rei, só de cuecas,
bem feliz, pôs-se a sorrir.

-- Vejam só que maravilha!
Como é lindo este tecido!
Vou agora desfilar
para o meu povo querido!

E o desfile começou,
como o rei pelado à frente.
De cuecas, como um tolo,
satisfeito e contente.

Todos viam o rei nu,
mas ninguém falava nada.
Pois a tal roupa do rei
todo mundo elogiava.

De repente, um menininho
ficou muito espantado
e gritou com toda a força:
-- Olha, o rei está pelado!

Aquela voz de criança
a verdade revelou.
E aquela gente enganada
em risadas desabou!

Todo o povo pulava,
ria, fazia chacota,
vendo a cara apalermada
daquele rei idiota!

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