Projeto Poesia às 2as.feiras

Imagem
GULLAR, Ferreira. Glauber morto. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.351

O morto não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto

não está barbeado
não está penteado
não tem flor na lapela
um flor 
na calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse 
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.



Projeto Poesia às segundas-feiras


BRECHT, Bertolt; SOUZA, Paulo César de (organizador e tradutor). Sobre a mudança da humanidade para as grandes cidades no início do terceiro milênio. IN: Poemas (1913-1956). São Paulo, editora 34, p.30

Muitos dizem que esse tempo é velho
Mas eu sempre soube que é um novo tempo
Eu lhes digo: não é por si mesmas
Que há vinte anos as casas nascem como montanhas de minério
Muitos mudam-se a cada ano para as cidades como se esperassem algo
E nos continentes risonhos
Fala-se que o grande e temido mar
É uma poça de água.

Eu morro hoje, mas tenho a certeza
De que as grandes cidades esperam agora o terceiro milênio
Ele começa, não há como detê-lo, hoje mesmo
Precisa apenas de um cidadão, e um único homem
Ou mulher basta.

É certo que muitos morrem nas reviravoltas
Mas o que signifca um indivíduo ser esmagado por uma mesa
Quando as cidades se juntam:
Esse novo tempo dura apenas quatro anos
Ele é o mais elevado que a humanidade recebe
Em todos os continentes veem-se homens estrangeiros
Os infelizes não são mais tolerados, pois
Ser homem é uma grande coisa.
A vida será considerada muito curta.
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