Projeto Poesia às 2as.feiras

Imagem
GULLAR, Ferreira. O lampejo. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.356

O poema não voa de asa-delta
não mora na Barra
não frequenta o Maksoud.
Pra falar a verdade, o poema não voa:
anda a pé
e acaba de ser expulso da fazenda Utupu
                                           pela polícia.

Como mal dorme mal cheira a suor,
parece demais com o povo:
                                            é assaltante?
                                            é posseiro?
                                            é vagabundo?
frequentemente o detêm para averiguações
          às vezes o espancam
          às vezes o matam
          às vezes o resgatam
          da merda
                         por um dia
e o fazem sorrir diante das câmeras da TV
de banho tomado.

O poema se vende
                se corrompe
confia no governo
desconfia
de repente se zanga
e quebra trezentos ônibus nas ruas de Salvador.

O poema é confuso
mas tem o rosto da história brasileira:
               tisnado de sol
   …

Projeto Poesia às segundas-feiras


FROST, Robert ; LAMBERT, Barbara Theoto. Juntando folhas IN: PICKLES, Sheila (Org.) Quatro estações. São Paulo, Melhoramentos, 1995. p.82 (Flores perfumadas)

Pás não recolhem folhas
melhor do que colheres,
e sacos cheios de folhas
são leves como balões.

Faço um estardalhaço
na lida o dia todo,
como o coelho e a corça
sempre a fugir.

Mao os montes que levanto
eludem meus abraços,
escapam de meus braços
e cobrem o meu rosto.

Posso colher e recolher
muitas e muitas vezes
até encher o galpão.
Mas o que tenho, então?

Quase nada quanto ao peso,
e já que as folhas ficam opacas
em contato com a terra,
quase nada quanto a cor.

Quase nada quanto ao uso.
Mas uma safra é uma safra,
e quem sabe dizer onde 
vai parar a colheita?


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