Projeto Poesia às 2as.feiras

Imagem
GULLAR, Ferreira. Glauber morto. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.351

O morto não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto

não está barbeado
não está penteado
não tem flor na lapela
um flor 
na calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse 
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.



Projeto Poesia às segundas-feiras


RIBEIRO, Esmeralda. Vários desejos de um rio. IN: Cadernos negros: melhores poemas. São Paulo, Quilombhoje, 1998. p.67-70

1.
Eu não queria ter em mim
águas incertas
laços de tormentas
mares de castelos movediços
abismo obediente
nem sequer que atrás de mim
há comportas com ninhos de serpentes.

Eu queria entender
esta cantiga de criança:
"A menina pretinha será rainha, olê seus cavaleiros!
Mas está presa no castelo, olê, olê, olá!
E por que ela não foge?, olê, seus cavaleiros!
Mas com quem está a chave?, olê, olê, olá!"

Eu não queria ser levada
pela correnteza de rosa
rosa perfume sem porto
desse meu Rio interno da infância submersa.

2. 
Eu não queria ter em mim
mar vermelho alquimia do tempo
corredeira frequente
sina de fêmea
desejo no fogo da quimera
nem pérola d'olho em lágrimas.

Eu queria aprender o beabá
navegar no mar do conhecimento
meu corpo desvendado
mergulhar no meu rio
mas... aprendi a amar.

Não queria
proibidas lições de amor,
um barriga lunágua
nem ficar ancorada em dúvidas:
em meu ventre há uma boneca quebrada?
como vou à escola?

Eu não queria ter
rosto à margem da multidão
a dor mergulhada no íntimo.

Não queria ouvir
a cantiga cantada pela Menina de Rua:
"A moça preta será rainha, olê, seus cavaleiros!
mas está presa no castelo, olê, olê, olá!
E por que ela não foge?, olê, seus cavaleiros!
mas com quem está a chave?, olê, olé, olá!"

Mas...
remo o choro em coro
correntezas incertas
balanço das águas devastadas.

Não queria
cair nas areias movediças do Touro
Touro é valente.

Não queria ser levada
pela correnteza de rosa
rosa dilúvio sem âncoras
desse meu Rio adolescente subterrâneo.

3. 
Eu queria
ondas silenciosas dentro do meu Rio
aquelas que batem e voltam
levando minhas barquinhas de sonhos.

Não queria
pensamentos ancorados em dúvidas:
não tenho mais bonecas quebradas?
O amor era vidro e se acabou?

Eu queria
depois de aplacar o vendaval,
depois de matar as travestida baleias,
descansar no leito da noite.

Eu queria
mergulhar meus sonhos para entender
a cantiga da menina de tranças
que agora é o meu oposto:
"A mulher negra será rainha, olê, seus cavaleiros!
Mas está presa no castelo, olê, olê, olá!
E por que ela não foge?, olê, seus cavaleiros!
Mas com quem está a chave?, olê, olê, olá!"

Eu queria
ondas silenciosas dentro do meu Rio
aquelas que fazem
xuá, xuá
desmanchando portas de areias
xuá, xuá...

Eu queria
descansar no leito da noite
de manhã navegar no Dia
preparar o próximo mergulho
ou talvez desaguar em algum
           happy end


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