Projeto Poesia às 2as.feiras

Imagem
GULLAR, Ferreira. Glauber morto. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.351

O morto não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto

não está barbeado
não está penteado
não tem flor na lapela
um flor 
na calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse 
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.



Projeto Poesia às segundas-feiras


MURRAY, Roseana; Galvão (ilustração). Tantos medos e outras coragens. São Paulo, FTD, 2007. 32p. (Segundas histórias)

Muitos medos a gente tem
e outros a gente não tem.
Os medos são como olhos de gato
brilhando no escuro.

Há, por exemplo, o medo de escuro
e tudo o que o escuro tem:
lobo mau, floresta virgem, alma
do outro mundo, portas fechadas,
cavernas, porões, ai que pavor!

O escuro tem mãos de veludo
que fazem o coração rolar
pela escada,
pela rua,
pela noite afora
como um cavalo sem freio.

E tem o medo de bicho
rato, cobra, barata,
morcego, aranha e lagartixa.
Tem gente que dá chilique,
grita, se arrepia, se arrebita,
e tem gente que nem liga,
pega o chinelo
e já vai esmigalhando,
ou simplesmente,
de um jeito mui digno,
passa por cima.

E tem o medo de conhecer
outras pessoas
medo de ir à festa,
medo de dançar errado,
o medo terrível de qualquer primeiro dia.

E tem o medo de mudar
de casa,
de mudar de rua,
de cidade, de país.

Mas tem gente que adora ir
e dançar e conhecer amigo novo.
Tem gente que adora se mudar,
que adora primeiro dia de aula.

E o medo de roupa nova
tão sem a cara da gente.
Medo de comprar sapato,
medo de falar no telefone
com quem nunca falou.

Mas tem quem escolhe fácil,
entra na loja e já vai
sabendo o que é bonito
sem nem duvidar.

E o medo de que não gostem
mais da gente,
depois de tanto tempo
sem se ver,
ou que tenham esquecido 
o nosso nome.

Tem gente que nem  pensa nisso.
Acha que é inesquecível e 
gostável sempre.

E o medo de não conseguir
não importa o quê:
fazer um desenho b9nit,
tirar nota boa,
aprender violão.

Tem gente que,
mesmo sem saber,
já sai tocando
a bola pra frente.

E o medo de não achar
um amor na vida,
de ficar só no mundo
a vida inteira.

Tem gente que nunca
pensou no assunto,
acha que tem um amor
sempre esperando
na próxima esquina.

Os medos são como
flores secretas,
cores secretas,
invisíveis vaga-lumes
marcando o caminho.

Isso a gente faz,
isso a gente não faz.
Como um relógio oculto.

Isso a gente faz,
isso a gente não faz.

Que a vida é um jogo
assim,
de tantos medos 
e outras coragens.

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