Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. O lampejo. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.356

O poema não voa de asa-delta
não mora na Barra
não frequenta o Maksoud.
Pra falar a verdade, o poema não voa:
anda a pé
e acaba de ser expulso da fazenda Utupu
                                           pela polícia.

Como mal dorme mal cheira a suor,
parece demais com o povo:
                                            é assaltante?
                                            é posseiro?
                                            é vagabundo?
frequentemente o detêm para averiguações
          às vezes o espancam
          às vezes o matam
          às vezes o resgatam
          da merda
                         por um dia
e o fazem sorrir diante das câmeras da TV
de banho tomado.

O poema se vende
                se corrompe
confia no governo
desconfia
de repente se zanga
e quebra trezentos ônibus nas ruas de Salvador.

O poema é confuso
mas tem o rosto da história brasileira:
               tisnado de sol
   …

Projeto Poesia às segundas-feiras

MATTOSO, Glauco. Recado. IN: Poética na Política: cem sonetos panfletários. São Paulo, Geração, 2004, p.10

Prezado presidente: quem lhe escreve
é cego e literato, caso inverso
do povo analfabeto, disperso
quis vê-lo lá pra já. Mas serei breve.

Também me revoltei, quase fiz greve
de fome, mas não roubo nem malverso.
Enquanto escuto os outros, faço verso
e creio que o senhor algo lhes deve.

O gringo é quem nos deve! Não lhe pague!
Resgate a real dívida, faminta,
interna, já que a externa é blefe e blague!

Se o banco protesta, deixe que sinta
no bolso o que é perder um Gulag!
Prometa-lhe que um dia paga! Minta!
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