Projeto Poesia às 2as.feiras

Imagem
GULLAR, Ferreira. Glauber morto. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.351

O morto não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto

não está barbeado
não está penteado
não tem flor na lapela
um flor 
na calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse 
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.



Projeto Poesia às segundas-feiras


NERUDA, Pablo; ROSAS, Isabel Córdoba (Org.); DEGRAZIA, José Eduardo (Trad.) Neruda para jovens: antologia poética edição bilingue. 3a.ed. Rio de Janeiro, José Olympio, 2013, p.85

A pobreza

Ai, não queres,
assusta-te a pobreza,

não queres
ir com sapatos rotos ao mercado
e voltar com o velho vestido.



Amor, não amamos,
como querem os ricos,
a miséria. Nós
a extirparemos como um dente mau
que ainda agora morde o coração do homem.

Mas eu não quero
que a temas.
Se chega por minha culpa à tua casa,
se a pobreza expulsa
teus sapatos dourados,
que não expulse teu riso, pão da minha vida.

Se não podes pagar o aluguel,
vai ao trabalho em passo orgulhoso,
e pensa, amor, que eu te estou olhando,
e somos juntos a maior riqueza
jamais reunida sobre a terra.
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