Projeto Poesia às 2as.feiras

Imagem
GULLAR, Ferreira. O lampejo. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.356

O poema não voa de asa-delta
não mora na Barra
não frequenta o Maksoud.
Pra falar a verdade, o poema não voa:
anda a pé
e acaba de ser expulso da fazenda Utupu
                                           pela polícia.

Como mal dorme mal cheira a suor,
parece demais com o povo:
                                            é assaltante?
                                            é posseiro?
                                            é vagabundo?
frequentemente o detêm para averiguações
          às vezes o espancam
          às vezes o matam
          às vezes o resgatam
          da merda
                         por um dia
e o fazem sorrir diante das câmeras da TV
de banho tomado.

O poema se vende
                se corrompe
confia no governo
desconfia
de repente se zanga
e quebra trezentos ônibus nas ruas de Salvador.

O poema é confuso
mas tem o rosto da história brasileira:
               tisnado de sol
   …

Projeto Poesia às segundas-feiras


CORALINA, Cora; DENÓFRIO, Darcy França (Org.) Cora Coralina. 3a.ed., São Paulo, Global, 2010. p.334

A fala de Aninha (É abril...)

É abril na minha cidade.
É abril no ano inteiro.
Sobe da terra tranquila um estímulo de vida e paz.
Um docel muito azul e muito alto cobre os reinos de Goiás.
Um sol de ouro novo vai virando e fugindo a longínquas partes do mundo.
Desaguaram em março as últimas chuvadas do verão passado.



É festa alegre das colheitas.
Colhem-se as lavouras.
Quebra-se o milho maduro.
Bate-se o feijão,
já se cortou e se empilhou o arroz das roças.
As máquinas beneficiam o novo
e as panelas cozinham depressa o feijão novo e gostoso.
A abundância das lavouras são carregadas para os depósitos e os mercados.
Encostam-se nas máquinas os caminhões em carga completa.
Homens fortes, morenos, de dorso nu e reluzente
descarregam e empilham a sacaria pesada.
Fecham-se os quarteirões de ruas para a secagem de grãos 
que secadores já não comportam.
Gira o capital, liquida-se nos bancos, paga-se no comércio.
As lojas faturam alto. É um abril de bênçãos e aleluias e cantam nas madrugadas todos os 
/galos do mundo.
Os pássaros, os bichos se fartam nas sobras do que vai perdido pelas roças.
Respigam aqueles que não plantam nem colhem  e têm direito às sobras dos que plantam e /colhem.
Mulheres e crianças estão afoitas dentro das lavouras brancas de algodão aberto, colhendo /e ensacando os capulhos de neve.
Sobe dos currais serenados a evaporação acre do esterco e da urina deixados pelos /animais de custeio.

O leite transborda dos latões no rumo das cooperativas.
Borboletas amarelas voam sobre o rio.
E um sobrevivente bem-te-vi lança seu desafio pousado nas palmas dos coqueiros altos.
É abril no mundo inteiro. Os paióis estão acalculados.
As trilhas derramando. Mulheres e crianças de sítio vestem roupa nova.
E a vida se renova na força contagiante do trabalho.
Um sentido de fartura abençoa os reinos da minha cidade.
Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Busque você mesmo!

Programa Agentes de Leitura