Projeto Poesia às segundas-feiras

Aqui termino (1949)

Este livro termina aqui. Nasceu
da ira como uma brasa, como os territórios
de bosques incendiados, e desejo
que continue como uma árvore vermelha
propagando a sua clara queimadura.
Mas não somente cólera em seus ramos
encontraste: não somente as suas raízes
procuraram a dor, mas também a força,
e força sou de pedra pensativa,
alegria de mãos congregadas.
Por fim, sou livre dentro dos seres.

Entre os seres, como o ar vivo,
e da solidão acurralada
saio para a multidão dos combates,
livre porque em minha mão vai a tua mão,
conquistando alegrias indomáveis.

Livro comum de um homem, pão aberto
é esta geografia do meu canto,
e uma comunidade de lavradores
algum dia recolherá o seu fogo
e semeará as suas chamas e suas folhas
outra vez na nave da terra.

E nascerá de novo esta palavra,
talvez em outro tempo sem dores,
sem as impuras fibras que aderiram
negras vegetações em meu canto,
e outra vez nas alturas estará ardendo
meu coração queimante e estrelado.
Assim termina este livro, aqui deixo
meu Canto geral escrito
na perseguição, cantando sob
as asas clandestinas de minha pátria.
Hoje 5 de fevereiro, neste ano
de 1949, no Chile, em "Godomar de Chena", alguns meses antes
dos quarenta e cinco anos de minha idade.

NERUDA, Pablo; CAMPOS, Paulo Mendes (tradutor) Canto geral. 16a.ed. Rio de Janeiro, Bertrand Brasil, 2010, p.601
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