Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. O lampejo. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.356

O poema não voa de asa-delta
não mora na Barra
não frequenta o Maksoud.
Pra falar a verdade, o poema não voa:
anda a pé
e acaba de ser expulso da fazenda Utupu
                                           pela polícia.

Como mal dorme mal cheira a suor,
parece demais com o povo:
                                            é assaltante?
                                            é posseiro?
                                            é vagabundo?
frequentemente o detêm para averiguações
          às vezes o espancam
          às vezes o matam
          às vezes o resgatam
          da merda
                         por um dia
e o fazem sorrir diante das câmeras da TV
de banho tomado.

O poema se vende
                se corrompe
confia no governo
desconfia
de repente se zanga
e quebra trezentos ônibus nas ruas de Salvador.

O poema é confuso
mas tem o rosto da história brasileira:
               tisnado de sol
   …

Projeto Poesia às segundas.feiras




O dia derradeiro

O céu estava coberto. Ninguém se decidia.
Um vento leve soprava. "Não é o grego, é o siroco" disse alguém.
Alguns esguios ciprestes pregados na encosta e o mar
Cinzento, com poças de luz, um pouco mais distante.
Os soldados apresentavam armas quando o chuvisco principiou a cair.
"Não é o grego, é o siroco." Foi a única coisa que se ouviu.
Entretanto, sabíamos que a partir da madrugada seguinte
Nada nos restaria, nem mesmo a mulher que junto a nós bebia o sono.
Nem mesmo a lembrança de havermos sido, outrora, homens,
Nada, partir da madrugada seguinte.

"Este vento lembra a primavera" dizia a amiga que caminhava junto de mim,
Olhando ao longe, "a primavera
Caída de repente em pleno inverno perto do mar fechado.
Primavera tão imprevista. Tantos anos se passaram. Como vamos morrer?

Uma marcha fúnebre errava na chuva fina.
Como morre um homem? É estranho, ninguém pensou nisso
A não ser como se pensa em antigas crônicas do tempo das Cruzadas.
Ou da batalha de Salamina.
E no entanto a morte é qualquer coisa que chega. Como morre um homem?
E entretanto cada qual ganha a sua morte, sua própria morte, a que não pertence
A ninguém mais.
E esse jogo é a vida.

A luz descia do céu coberto, ninguém se decidia.
Na madrugada seguinte, nada restaria, seria preciso entregar tudo
Mesmo nossas mãos,
E nossas mulheres cativas, reduzidas a carregar água,
E nossos filhos nas pedreiras
Minha amiga cantava andando junto de mim um pedaço de canção:
"Na primavera... no verão... ilhotas..."
Lembrávamos velhos mestres que nos deixaram órfãos.
Passou um casal, dizia um deles:
"Irrita-me demais o crepúsculo, voltemos a casa,
Voltemos a casa para acender a luz.

                                                               Atenas. Fevereiro de 1939

SEFERIS, Giorgos. Poemas. Rio de Janeiro, Opera Mundi, 1971, p.159 (Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura)


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