Projeto Poesia às segundas-feiras


Com a primaveril violeta ergui a fala:
“Furtaste, ó doce ladra, esse teu doce odor
Ao hálito de meu amor; e a própria gala
Purpúrea que face ostentas como cor,

Em suas veias é que foste matizá-la.”
Amanjerona em flor furtou-te a cabeleira;
Louvando tua mão, o lírio vitupero;
Tímida, queda na haste a rosa: a esta primeira

Cora a vergonha, àquela um branco desespero;
Outra, de vário tom, furta a ambas, e além disso
Teu hálito acrescenta ao roubo de matiz;

Contudo — pois roubou — na pompa de seu viço
De morte vem roê-la alguma praga ultriz.
Mais flores observei, porém nenhuma eu vi
Que a doçura, ou a cor, não a devesse a ti.

SHAKESPEARE, William; RAMOS, Péricles Eugênio da Silva (Tradução). Sonetos. 4.ed. Rio de Janeiro, Ediouro, p. 101 (Clássicos de bolso).
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