Projeto Poesia às 2as.feiras

Imagem
GULLAR, Ferreira. O lampejo. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.356

O poema não voa de asa-delta
não mora na Barra
não frequenta o Maksoud.
Pra falar a verdade, o poema não voa:
anda a pé
e acaba de ser expulso da fazenda Utupu
                                           pela polícia.

Como mal dorme mal cheira a suor,
parece demais com o povo:
                                            é assaltante?
                                            é posseiro?
                                            é vagabundo?
frequentemente o detêm para averiguações
          às vezes o espancam
          às vezes o matam
          às vezes o resgatam
          da merda
                         por um dia
e o fazem sorrir diante das câmeras da TV
de banho tomado.

O poema se vende
                se corrompe
confia no governo
desconfia
de repente se zanga
e quebra trezentos ônibus nas ruas de Salvador.

O poema é confuso
mas tem o rosto da história brasileira:
               tisnado de sol
   …

Projeto Poesia às segundas-feiras

capa do livro Sonetos, de Shakespeare
Descortinei o inverno ao me afastar de ti,
De ti, delícias do ano que jamais perdura!
Que dias negros e que gelos não senti;
Que nudez de dezembro velho por moldura!

Era contudo pleno estio esta ocasião,
E, à espera de opulenta prole, a hora do outono,
Trazendo o fardo voluptuoso do verão,
Como a esposa, já morto o seu senhor e dono:

Mas essa larga geração me parecia
Fruto sem pai, futuros órfãos tão-somente:
Porque o verão te segue, e mais sua alegria,

E os pássaros não cantam quando estás ausente.
Ou, caso cantem, de modo se entristecem,
Que as folhas por temor do inverno empalidecem.

SHAKESPEARE, William; RAMOS, Péricles Eugênio da Silva (Tradução) Sonetos. 4.ed. Rio de Janeiro, Ediouro, p. 97 (Clássicos de bolso).

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