Projeto Poesia às segundas-feiras

Segunda-feira
Entre os asfodelos inclinados dormem os cegos,
Um povo de cegos e os asfodelos se inclinam
Crestados pela geada da aurora.
(Lembro os paphiopedila, no inverno passado,
Bem fechados no calor.
A vista basta).
Por travesseiro, instrumento lacerador,
Fonógrafos raquíticos,
Harmônicas furadas,
Harmônios esgotados.
Estarão mortos?
Não se distingue facilmente um cego imóvel
Animam-se às vezes os sonhos dessas coisas, por isso digo que dormem.
A toda a volta, sobre as casas, petrificadas as vestes de anjo me acenam
O Rio já não corre, esqueceu-se do mar.
O mar no entanto existe — e quem o esgotará?
Os cegos dormem,
Os anjos nus correm nas suas veias,
Bebem seu sangue e lhes dá sabedoria
E o coração com seus  olhos horríveis calcula o instante da exaustão,
Olho o rio,
Borrascas ligeiras passam sob o sol mesquinho.
Mais nada, o rio espera.
Tenha piedade daqueles que esperam.
Mais nada, basta isso por hoje.

SEFERIS, Giorgos; DAMASCENO, Darcy (Tradução) Poemas. Rio de Janeiro, Opera Mundi, 1971. pp. 127-8 (Biblioteca dos Prêmios Nobel de Literatura)


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