Projeto Poesia às segundas-feiras


Uma estação -- o outono -- em mim tu podes ver:
Já a folhagem é rara, ou nula, ou amarelada,
Nos ramos que gelado vento vem bater,
Coros em ruína, onde cantava a passarada.

Em mim contemplas o clarão crepuscular,
Quando no ocaso, posto o sol, se esvai o dia:
Segunda morte, que faz tudo repousar,
Agora mesmo o levará noite sombria.

Em mim divisas uma chama a fulgurar
Nas cinzas de uma juventude já perdida,
Como em leito final onde haja de expirar,

Só por aquilo que a nutria consumida.
Isso é o que vês, e teu amor fica mais forte,
Para amar o que logo perderás na morte.

SHAKESPEARE, William. RAMOS, Péricles Eugênio da Silva (Tradução) Sonetos. 4a.ed. Rio de Janeiro, Ediouro, p.87 (Clássicos de bolso)
Postar um comentário