Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Poema. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.217
Se morro o universo se apaga como se apagam as coisas deste quarto                                     se apago a lâmpada: os sapatos-da-ásia, as camisas e guerras na cadeira, o paletó- dos-andes,          bilhões de quatrilhões de seres e de sóis          morrem comigo.
Ou não:           o sol voltará a marcar           este mesmo ponto do assoalho           onde esteve meu pé;                                          deste quarto           ouvirás o barulho dos ônibus na rua;             uma nova cidade             surgirá de dentro desta             como a árvore da árvore.
Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens a mesma história que eu leio, comovido.

Projeto Poesia às segundas-feiras


Esta é a tua safra

Minha filha, junto a teus irmãos não lamente nem digam,
coitada da mamãe...
Ninguém é coitada, nem eu.
Somos todos lutadores.

Se souberes viver, aproveitar as lições, escreverás poemas.
Teus cabelos brancos serão bandeiras de paz.
E viverás na lembrança das novas gerações.

Não te queixes jamais das mãos vazias que sacodem lama.
E pedaços rudes de um passado morto não sejam revividos,
sem mais empenho senão enxovalhar, ferir e destruir.

Recria sempre com valor
o pouco ou o muito que resta.
Prossegue. Em resposta ao néscio
brotará sempre uma flor escassa
das pedras e da lama que procuram te alcançar.
Esta é a tua luta.

Tua vida é apagada. Acende o fogo nas geleiras que te cercam.
O tardio poema dos teus cabelos brancos.
Recebe como oferta as pedras e a lama da maldade humana.

Esta é a tua safra.

CORALINA, Cora. DENÓFRIO, Darcy França (Organização) Cora Coralina. 3a.ed., São Paulo, Global, 2010. p.244 (Melhores poemas)
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