Projeto Poesia às segundas-feiras

O poema

A tinta e a lápis
escrevem-se todos
os versos do mundo.

Que monstros existem
rodando no poço
negro e fecundo?

Que outros deslizam
largando o carvão
de seus ossos?

Como o ser vivo
que é um verso,
um organismo

Com sangue e sopro
pode brotar
de germes mortos?

O papel nem sempre
é branco como
a primeira manhã.

E muitas vezes
o pardo e pobre
papel de embrulho,

é de outras vezes
de carta aérea,
leve de nuvem.

Mas é no papel,
no branco asséptico,
que o verso rebenta.

Como um ser vivo
pode brotar
de um chão mineral?

MELO NETO, João Cabral de. Serial e antes. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, p.41-2



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