Projeto Poesia às segundas-feiras

Reinauguração
Entre o gasto dezembro e o florido janeiro,
entre a desmitificação e a expectativa,
tornamos a acreditar, a ser bons meninos,
e como bons meninos reclamamos
a graça dos presentes coloridos.
Nossa idade - velho ou moço - pouco importa.
Importa é nos sentirmos vivos
e alvoroçados mais uma vez e, revestidos de beleza, a exata beleza que vem dos gestos espontâneos
e do profundo instinto de subsistir
enquanto as coisas em redor se derretem e somem como nuvens errantes no universo estável.
Prosseguimos. Reinauguramos. Abrimos olhos gulosos a um sol diferente que nos acorda para os descobrimentos.
Esta é a magia do tempo.
Esta é a colheita particular
que se exprime no cálido abraço e no beijo comungante
no acreditar na vida e na doação de vivê-la
em perpétua procura e perpétua criação.
E já não somos finitos e sós.
Somos uma fraternidade, um território, um país
que começa outra vez no canto do galo de 1o. de janeiro
e desenvolve na luz o seu frágil projeto de felicidade.

ANDRADE, Carlos Drummond de. Farewell. 4a.ed., Rio de Janeiro, Record, 1997. p.92

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