Projeto Poesia às 2as.feiras

Imagem
GULLAR, Ferreira. Glauber morto. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.351

O morto não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto

não está barbeado
não está penteado
não tem flor na lapela
um flor 
na calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse 
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.



Projeto Poesia às segundas-feiras


Zumbi

Em meu torrão natal - Imperatriz -,
nas serras da Barriga e da Juçara,
um homem negro, muito negro, quis
mostrar ao mundo que tinha a alma clara.

E tem o sonho que Platão sonhara: -
que um sonho nobre não possui matiz
(O sol d'Egina é o mesmo sol do Saara,
da Senegâmbia, de qualquer país).

Em mil seiscentos e noventa e sete,
galgam o topo da montanha a pique,
os homens brancos de Caetano e Castro.

E o negro que não se curva e inflete,
faz-se em pedaços para que não fique
com os homens brancos, o seu negro rastro...

O Estado de Alagoas, Maceió, 14 de agosto de 1921

LIMA, Jorge de; BUENO, Alexei (Org.) Poesia completa, v.1. Rio de Janeiro, Nova Aguilar, 2004. p.184.
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