Projeto Poesia às 2as.feiras

Imagem
GULLAR, Ferreira. O lampejo. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.356

O poema não voa de asa-delta
não mora na Barra
não frequenta o Maksoud.
Pra falar a verdade, o poema não voa:
anda a pé
e acaba de ser expulso da fazenda Utupu
                                           pela polícia.

Como mal dorme mal cheira a suor,
parece demais com o povo:
                                            é assaltante?
                                            é posseiro?
                                            é vagabundo?
frequentemente o detêm para averiguações
          às vezes o espancam
          às vezes o matam
          às vezes o resgatam
          da merda
                         por um dia
e o fazem sorrir diante das câmeras da TV
de banho tomado.

O poema se vende
                se corrompe
confia no governo
desconfia
de repente se zanga
e quebra trezentos ônibus nas ruas de Salvador.

O poema é confuso
mas tem o rosto da história brasileira:
               tisnado de sol
   …

Projeto Poesia às segundas-feiras


A W.H. Auden
Já não descontarei o cheque
que certo dia me mandaste:
"A João Cabral de Melo Neto,
com dez mil amizades, Auden."

Como a morte encerrou tuas contas
de libras, dólares, amizade,
hoje só resta a conta aberta
de teus livros de onde sacar-se.

E de onde há muito que sacar:
Como botar prosa no verso,
como transmudá-la em poesia,
como devolver-lhe o universo

de que lhe falou: como livrá-la
de falar em poesia, língua
que se estreitou na cantilena
e é estreita de coisas e rimas.

MELO NETO, João Cabral de. A educação pela pedra e depois. Rio de Janeiro, Nova Fronteira, 1997. p.247.
Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Busque você mesmo!

Programa Agentes de Leitura