Projeto Poesia às 2as.feiras

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GULLAR, Ferreira. Poema. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.217
Se morro o universo se apaga como se apagam as coisas deste quarto                                     se apago a lâmpada: os sapatos-da-ásia, as camisas e guerras na cadeira, o paletó- dos-andes,          bilhões de quatrilhões de seres e de sóis          morrem comigo.
Ou não:           o sol voltará a marcar           este mesmo ponto do assoalho           onde esteve meu pé;                                          deste quarto           ouvirás o barulho dos ônibus na rua;             uma nova cidade             surgirá de dentro desta             como a árvore da árvore.
Só que ninguém poderá ler no esgarçar destas nuvens a mesma história que eu leio, comovido.

Poesia às segundas-feiras

capa do livro Dezenove poemas desengonçados


Aula de leitura
A leitura é muito mais
do que decifrar palavras.
Quem quiser parar pra ver
pode até se surpreender.

vai ler as folhas do chão,
se é outono ou se é verão;

nas ondas soltas do mar,
se é hora de navegar;

e no jeito da pessoa,
se trabalha ou é à-toa;

na cara do lutador
quando está sentindo dor;

vai ler na casa de alguém,
o gosto que o dono tem;

e no pelo do cachorro,
se é melhor gritar socorro;

e na cinza da fumaça,
o tamanho da desgraça;

e no tom que sopra o vento,
se corre o barco ou sai lento;

e também na cor da fruta,
e no cheiro da comida;

e no ronco do motor,
e nos dentes do cavalo;

e na pele da pessoa,
e no brilho do sorriso;

vai ler nas nuvens do céu,
vai ler na palma da mão;

vai ler até nas estrelas
e no som do coração.

Uma arte que dá medo
é a de ler um olhar,
pois os olhos tem segredos
difíceis de decifrar.

AZEVEDO, Ricardo. Dezenove poemas desengonçados. São Paulo, Ática, 1998.


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