Projeto Poesia às 2as.feiras

Imagem
GULLAR, Ferreira. O lampejo. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.356

O poema não voa de asa-delta
não mora na Barra
não frequenta o Maksoud.
Pra falar a verdade, o poema não voa:
anda a pé
e acaba de ser expulso da fazenda Utupu
                                           pela polícia.

Como mal dorme mal cheira a suor,
parece demais com o povo:
                                            é assaltante?
                                            é posseiro?
                                            é vagabundo?
frequentemente o detêm para averiguações
          às vezes o espancam
          às vezes o matam
          às vezes o resgatam
          da merda
                         por um dia
e o fazem sorrir diante das câmeras da TV
de banho tomado.

O poema se vende
                se corrompe
confia no governo
desconfia
de repente se zanga
e quebra trezentos ônibus nas ruas de Salvador.

O poema é confuso
mas tem o rosto da história brasileira:
               tisnado de sol
   …

Poesia às segundas-feiras

MAIAKOVSKI, Vladmir. Maiakovski: poemas. Tradução de Boris Schnaiderman, Augusto e Haroldo de Campos. 8. ed. São Paulo, Perspectiva, 2011. p. 123 (Signos)

Incompreensível para as massas
Entre escritor e leitor posta-se o intermediário,
e o gosto intermediário e bastante intermédio.
Medíocre mesnada de medianeiros médios
pulula na crítica e nos hebdomadários.
Aonde galopando chega te pensamento,
um deles considera tudo sonolento.
— Sou homem de outra têmpera! Perdão,
lembra-me agora um verso de Nadson...
O operário não tolera linhas breves.
(E com tal mediador ainda se entende Assieiev!)
Sinais de pontuação? São marcas de nascença!
O senhor corta os versos toma muitas licenças.
Továrich Maiakovski, por que não lhe escreve iambos?
Vinte copeques por linha eu lhe garanto, a mais.
E narra não sei quantas lendas medievais,
e fala quatro horas longas como anos.
O mestre lamentável repete um só refrão:
— Camponês e operário não o compreenderão.
O peso da consciência pulveriza o autor.
Mas voltemos agora ao conspícuo censor:
Camponeses só viu há tempo antes da guerra, na datcha ao comprar mocotós de vitela.
Operários? Viu menos.
Deu com dois uma vez por ocasião da cheia,
dois pontos numa ponte contemplando o terreno,
vendo a água subir e a fusão das geleiras.
Em muitos milhões para servir de lastro
colheu dois exemplares o nosso criticastro.
Isto não lhe faz mossa — é tudo a mesma massa...
Gente — de carne e osso!
E à hora do chá expende sua sentença:
— A classe operária? Conheço-a como a palma!
Por trás do seu silêncio, posso ler-lhe a alma —
Nem dor nem decadência.
Que autores então há de ler essa classe?
Só Gógol, só os clássicos.
Camponês? Também. O quadro não se altera.
Lembra-me agora — a datcha, a primavera...
Este palrar de literatos muitas vezes passa
entre nós por convívio com a massa.
E impinge modelos pré-revolucionários
da arte do pincel, do cinzel, do vocábulo.
E para a massa flutuam dádivas de letrados —
lírios, delírios, trinos dulcificados.
Aos pávidos poetas aqui vai meu aparte:
Chega de chuchotar versos para os pobres.
A classe condutora também ela pode
compreender a arte.
Logo: que se eleve a cultura do povo!
Uma só, para todos.
O livro bom é claro e necessário
a mim, a vocês, ao camponês e ao operário.
(1927)
Tradução de Haroldo de Campos
Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

Busque você mesmo!

Programa Agentes de Leitura