Projeto Poesia às 2as.feiras

Imagem
GULLAR, Ferreira. Glauber morto. IN: Toda poesia (1950-1999). 10ed., Rio de Janeiro, José Olympio, 2001. p.351

O morto não está de sobrecasaca
não está de casaca
não está de gravata.

O morto está morto

não está barbeado
não está penteado
não tem flor na lapela
um flor 
na calça
sapatos de verniz

não finge de vivo
não vai tomar posse 
na Academia.

O morto está morto
em cima da cama
no quarto vazio.

Como já não come
como já não morre
enfermeiras e médicos
não se ocupam mais dele.

Cruzaram-lhe as mãos
ataram-lhe os pés.

Só falta embrulhá-lo
e jogá-lo fora.



Uma definição de poesia, de René Depestre



A Jorge Amado

A poesia é nosso pai que chega ao anoitecer
Sob chuva torrencial e nos murmura
Uma canção plangente que compôs para uma pequenina
Colher de prata.
Nosso pai queria sustar a chuva de setembro com uma
     colherinha e a tempestade transformou o seu espírito
     no de um bobo velho.
A poesia é:
     Um pai haitiano que perde o juízo
      Por uma colherinha que se fez canção
     Sob chuva que tomba violenta
      Vizinha a nossa infância!

O poeta em Cuba
1976

DEPESTRE, Rene. IN: FARIA, Idelma de Faria (organização e tradução). T.S. Eliot, Emily Dickinson, Rene Depestre: seleção. São Paulo, Hucitec, 1992. p.169


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