A Biblioteca Pública e o hábito da leitura.


A literatura existente sobre o hábito de leitura no Brasil aponta dois caminhos distintos. O primeiro, é que parte expressiva da população não tem o hábito de ler, devido principalmente aos problemas sociais e educacionais existentes. O segundo, indica que nunca se leu tanto no país, baseado no desenvolvimento da indústria editorial e, principalmente, nas tiragens expressivas de algumas revistas semanais.
Não existe ainda um diagnóstico científico com indicadores relevantes sobre o papel que a biblioteca pública desempenhou no crescimento da indústria editorial e na formação de um público leitor. Os dados estatísticos existentes são extremamente falhos, pois apenas apontam indicadores quantitativos baseados na consulta de livros e no empréstimo domiciliar.
Além dos problemas acima citados, devemos acrescentar que nos grandes centros urbanos as bibliotecas públicas foram construídas no centro das cidades, esquecendo-se das populações suburbanas ou rurais. Acresce, ainda, ao problema das bibliotecas públicas, o fato de, geralmente, elas não serem unidades orçamentárias, o que prejudica enormemente a atualização do acervo e a capacitação dos recursos humanos.
Tradicionalmente, no Brasil, elas desempenham atividades que deveriam ser executadas por bibliotecas escolares. A falta da biblioteca escolar faz com que os estudantes sejam quantitativamente os maiores usuários das bibliotecas públicas e os recursos existentes passam a ser prioritários para o atendimento estudantil, como a aquisição de material didático e a especialização do pessoal na elaboração de atividades de ensino. Geralmente, há um vício na pesquisa escolar realizada na biblioteca pública, pois está baseada na cópia de dicionários e enciclopédias, atividades que não são condizentes com a formação de um público leitor.
Segundo a autora Lucila Martinez  afirma que a leitura ao longo do processo histórico desempenhou um papel importante para intensificar a participação social do indivíduo. Já existe uma série de princípios definidos em torno desta problemática, entre as quais destacamos:
a) uma das causas dos fracassos das reformas qualitativas da educação é a atenção inadequada e insuficiente que se dá ao problema da leitura, situação esta que deriva da não inclusão deste fator dentro dos planos e políticas de desenvolvimento do setor social, educativo e cultural.
b) a eficácia das campanhas de alfabetização de massas é prejudicada pela falta de investigação, estudos e informação sobre a produção e distribuição de materiais para novos leitores, crianças e adultos, pela carência de mecanismos de sustentação das campanhas (o que provoca o retorno ao analfabetismo) e igualmente pela falta de facilidade para generalizar o acesso da população à produção editorial que circula no país;
c) a contradição que existe na atualidade entre as quantidades de produção e venda de livros e o baixo número de leitores registrados pelas estatísticas, provocado em grande parte pela identificação indiscriminada do livro e da leitura como uma atividade predominantemente escolar e que, portanto, deixa de ser exercida quando cessa a escolaridade;
d) não basta criar certas condições quanto à leitura; é necessário dedicar esforços à formação do leitor para despertar nele o interesse de ler, estimular sua atividade positiva e seu gosto pelos livros e facilitar o acesso a materiais e atividades que consolidem seus hábitos de leitura.
Além disso, devemos afirmar também que o profissional da informação muitas vezes não é formado para ser um propagador de uma política de leitura. Experiências de países desenvolvidos comprovam que, para a formação de um público leitor, é imprescindível que o profissional responsável tenha conhecimento não só do acervo, mas da própria produção editorial do seu país, para aconselhá-la adequadamente aos usuários.
Experiências desenvolvidas comprovam que para a biblioteca pública formar e manter um público leitor, duas atividades são extremamente relevantes. A primeira é a interação adequada com a comunidade e a segunda é a segmentação de mercado.
Poucas bibliotecas públicas conseguem ter uma interação adequada com a comunidade, pois geralmente não utilizam técnicas de elaboração de diagnóstico para conhecer detalhadamente a situação dos leitores reais e potenciais do seu município. Outra dificuldade é que, apesar do nome "Biblioteca Pública", os habitantes da localidade não têm a dimensão de que aquela instituição é patrimônio da comunidade, e que, portanto deve ser utilizada e preservada como um bem comum.
Antecipando o estudo da vinculação entre biblioteca pública e comunidade, é preciso conhecer quais são as características da biblioteca e da comunidade. A este respeito, as que identificam a biblioteca pública incluiriam, entre outros, os seguintes pontos: acervos, postos de leitura, pessoal (quantidade e qualidade), organização, serviços e produtos oferecidos etc. No que tange às características da comunidade, estas podem deduzir-se por meio de contato direto com a comunidade mesma, assim como por meio das publicações, de censos, de investigações e de diversos estudos realizados sobre a comunidade em questão.
Essa interação se vê condicionada, em grande medida, pelas circunstâncias que rodeiam o surgimento da biblioteca pública. Neste sentido, quando uma biblioteca se instala como produto do esforço dos membros, grupos e instituições da comunidade, sua vinculação aos diferentes níveis encontra-se garantida, sempre que se mantenha o contato estreito com eles. Do contrário, uma biblioteca que surja como conseqüência de uma decisão tomada nas altas hierarquias terá de estabelecer a relação com a comunidade por meio do profissional da informação.
Não obstante, podem-se estabelecer diversos níveis de interação biblioteca-comunidade, dentre os quais podemos assinalar os seguintes: relação com o usuário ou, o que é o mesmo, a prestação do serviço comunitário; conhecimento das distintas características da comunidade (demográficas, educacionais, culturais, etc.); conhecimento das necessidades e interesses de leitura, informação e recreação dos usuários potenciais e reais, das instituições e de outros membros da comunidade; o enriquecimento e a adequação dos acervos das bibliotecas segundo as características da comunidade e as suas necessidades e interesses de leitura e de informação; a realização de atividades relacionadas com a prestação do serviço bibliotecário (círculo de estudos, seminários, cursos, exposições bibliográficas, visitas dirigidas, hora do conto, debates sobre crítica literária etc.) executadas exclusivamente pela biblioteca; realização de atividades vinculadas à prestação de serviços bibliotecários e de cuja organização participa a biblioteca com o apoio da comunidade e/ou usuário; e realização de atividades destinadas a satisfazer necessidades mais amplas da comunidade, não vinculadas estritamente a serviços que presta a biblioteca.
Na verdade, somente uma interação adequada com a comunidade é que permitirá à biblioteca desenvolver produtos e serviços que de fato sejam indicadores qualitativos da formação e manutenção do público leitor.
Tradicionalmente, as bibliotecas públicas utilizam três estratégias distintas para o atendimento ao usuário. A primeira é o marketing indiferenciado onde a biblioteca trata de atender a todos os segmentos da comunidade oferecendo os mesmos produtos e serviços. O segundo é a concentração de mercado, ela concentra os seus esforços em um segmento específico da comunidade, proporcionando um excelente serviço em detrimento de outros segmentos considerados como de menor importância para o crescimento da comunidade. O terceiro é o chamado marketing diferenciado em que a biblioteca estuda as características diferenciadas de cada segmento e prepara uma estratégia para atender de maneira específica às necessidades de cada um.
Portanto, segmentação de mercado é um processo que mostra a definição de grupos homogêneos de clientes, em função das seguintes variáveis: necessidades, desejos, características geográficas, demográficas e socioeconômicas.
No caso específico da biblioteca pública se justifica a utilização de técnicas de segmentação de mercado, pois a comunidade é heterogênea com relação aos interesses de informação e leitura e os recursos disponíveis nem sempre são suficientes para atender a variados tipos de demanda.
O grande problema reside na escolha do segmento adequado. Geralmente se utilizam duas variáveis: a primeira é a que se chama força organizacional, ou seja, quais os pontos fortes da biblioteca relacionados com o desenvolvimento das coleções, os recursos humanos e os produtos e serviços postos à disposição da comunidade; a segunda é a atração do mercado, que deve refletir os pontos fortes da comunidade relacionados não somente com a força organizacional, mas também com o próprio desenvolvimento da comunidade em questão. Na medida em que as duas variáveis se cruzam e os pontos fortes são coincidentes, significa que aquele segmento terá condições de ser viabilizado sem grandes esforços financeiros. Se os pontos fortes não coincidem, a biblioteca terá um esforço maior financeiro e de capacitação de recursos humanos para viabilizar a proposta de segmentação de mercado.


Fonte de pesquisa: http://www.proler.bn.br/
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